Surtos de dengue, zika e chikungunya no Brasil são mais um fator agravado pela crise climática

Pesquisas mostram como os impactos climáticos na saúde aceleram surtos de doenças infecciosas no Brasil, ampliando riscos em áreas vulneráveis e pressionando sistemas locais de vigilância.

A saúde humana ainda permanece marginalizada nos debates centrais sobre o clima. Pesquisadores apontam que os efeitos das mudanças ambientais, como desmatamento, alterações no regime de chuvas e aumento das temperaturas, têm impacto direto nos padrões de doenças infecciosas, especialmente em regiões tropicais como a Amazônia, onde os impactos climáticos na saúde se manifestam de forma acelerada.

Dados recentes mostram que a elevação da temperatura mínima para cerca de 22 °C favorece a proliferação do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, chikungunya e zika. Como resultado, estados brasileiros têm registrado recordes de casos, incluindo o Rio Grande do Sul, que lidera os índices de chikungunya na América Latina. Especialistas também chamam atenção para vírus endêmicos da Amazônia, como o Oropouche, que se expandem rapidamente após grandes intervenções ambientais, outro reflexo direto dos impactos climáticos na saúde pública.

Vista aérea de cidade alagada.
Enchentes aumentam o risco de leptospirose, contaminação por esgoto e surtos de doenças, evidenciando os impactos climáticos na saúde das populações urbanas. Foto: Pok/ RiePexels

Pesquisadora da Fiocruz com atuação em saúde ambiental há duas décadas, Sandra Hacon ressalta que o país possui estrutura científica robusta, mas carece de ações coordenadas e políticas preventivas. “A saúde ainda não está preparada para o enfrentamento da crise climática, não por falta de técnica ou profissionais, mas porque o sistema funciona de forma reativa.” 

Hacon defende a integração entre modelagem climática e vigilância epidemiológica para mitigar os impactos climáticos na saúde de populações vulneráveis, especialmente diante de eventos extremos como os desastres naturais em Petrópolis e São Sebastião.

Iniciativas como o uso de aplicativos para monitoramento de fauna por comunidades tradicionais já ajudam a antecipar surtos, como o da febre amarela. No entanto, ainda faltam investimentos em programas voltados para populações vulneráveis, como indígenas de recém-contato.

Durante a COP30, em Belém, Hacon aponta que até mesmo a infraestrutura do evento desconsiderou a relação entre clima e saúde. Altas temperaturas e umidade impactaram diretamente a condição física de participantes, evidenciando a urgência de inserir o tema de forma central nas conferências climáticas. “A conexão entre clima, ambiente e saúde está diante dos olhos de todos e ainda assim não é vista”, lamenta.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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