Geleira da Groenlândia sofre rupturas inéditas após décadas de aquecimento

Fraturas recorrentes e lagos subglaciais revelam que a geleira da Groenlândia, conhecida como Geleira 79°N, pode estar entrando em um novo estado instável, com impactos ainda imprevisíveis no oceano.

A Geleira 79°N, uma das maiores geleiras da Groenlândia, está passando por mudanças rápidas e preocupantes. Pesquisadores do Instituto Alfred Wegener (AWI) revelaram que um lago formado sobre a superfície em 1995 tem drenado grandes volumes de água doce para o oceano, provocando fraturas incomuns e profundas transformações no gelo. Desde sua formação, já ocorreram sete eventos de drenagem abrupta, quatro deles somente nos últimos cinco anos.

Durante esses episódios, a superfície da geleira da Groenlândia desenvolve campos de fraturas triangulares e grandes poços verticais chamados moulins, com dezenas de metros de profundidade. Por esses canais, a água do degelo alcança a base da camada de gelo em poucas horas, criando lagos subglaciais que deformam verticalmente a geleira, elevando sua superfície em certos pontos.

Os cientistas observaram que as fraturas não desaparecem com o tempo. Ao contrário, permanecem detectáveis por anos, sugerindo que existe uma rede interconectada de canais no interior da geleira da Groenlândia 79°N. Essa estrutura pode estar sendo reativada por repetidos episódios de entrada de água, alterando a dinâmica glacial de forma contínua.

Cientista manuseando sonda científica na Geleira 79°N, na Groenlândia, para monitorar fraturas e fluxo de água.
Pesquisadores utilizam sondas para medir alterações internas na geleira da Groenlândia. Os dados ajudam a entender como o aquecimento global está afetando sua estrutura. Foto: Ole Zeising

Utilizando imagens de radar, sensoriamento remoto e modelagens viscoelásticas, os pesquisadores buscam entender se a geleira entrou em um novo estado permanente ou ainda pode se recuperar. A preocupação central é se esse padrão de drenagens recorrentes e rápidas — que ocorrem em questão de horas ou dias — ultrapassa a capacidade de adaptação do sistema glacial.

O fenômeno oferece dados inéditos sobre como fraturas se formam e evoluem, contribuindo para a melhoria de modelos de previsão do comportamento dos mantos de gelo. Com o avanço do aquecimento global, entender esses processos será essencial para prever o futuro da geleira da Groenlândia e seu impacto no nível do mar global.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Brasil: câmeras em ação e a democracia na cabeça

"A democracia não se defende só com voto —...

Das veias abertas ao protagonismo amazônico

"A transformação brasileira pode manter tudo o que temos...

Enfim, destravou o acordo UE–Mercosul. E como isso afeta a ZFM?

“A síntese é esta: o Acordo UE–Mercosul mexe no...

Desmatamento na Amazônia e no Cerrado recua, mas pressão sobre biomas persiste

Desmatamento na Amazônia e no Cerrado caiu em 2025, mas ainda soma área maior que seis vezes a cidade de São Paulo, segundo dados do Inpe.

Estudo mostra que milhões de espécies ainda não foram descobertas

Descoberta de espécies atinge ritmo histórico e revela biodiversidade oculta com potencial para conservação, saúde e inovação tecnológica.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui