Fuga de investimentos para os EUA contribui para alta inflação no País, diz Paulo Feldmann

De acordo com o professor, 2022 será um ano ruim, porque não foram tomadas as medidas adequadas em 2021 para resolver os problemas da fome, da pobreza e do desemprego

A inflação brasileira de 2021 fechou o ano como a maior desde 2015, em 10,06%. A taxa corresponde a quase o dobro da meta fixada para o ano, 5,25%. Para 2022, a expectativa é que a inflação continue alta, ainda que um pouco menor, com previsão entre 7% e 8%.

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Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA)

Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo, comenta sobre a situação do País. Segundo o professor, a previsão é que, em 2022, o governo não consiga resolver o problema da inflação. “Há uma conjunção de fatores negativos no horizonte, acontecendo todos ao mesmo tempo”, conta.

Um desses fatores é a fuga de investimentos para os Estados Unidos. A inflação no país fechou entre 6,5% e 7%, devido a um aumento nas taxas de juros motivado pelo grande crescimento no consumo.

Essas taxas altas de juros, somadas à segurança de investir no país, intensificaram a migração dos investimentos para lá, fortalecendo ainda mais o dólar e, por consequência, desvalorizando o real, causando o aumento da inflação. É possível que o valor do dólar supere R$ 6.

O professor conta que o volume maior de chuvas nos últimos tempos aumentou o nível dos reservatórios e permitiu que o governo adiasse o uso de termelétricas, que encarece muito o custo da energia. Essa situação possibilitará certa redução na inflação.

Outro fator que reduz a inflação é que o preço das commodities não deve crescer muito. Isso porque, segundo Feldmann, o mundo, como um todo, importa menos commodities. A China, especialmente, que ano passado comprou quase um terço do que o Brasil vendeu para o exterior, apresenta uma diminuição das compras desses itens, consequência da diminuição do ritmo de crescimento do país imposto pelo governo chinês.

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Foto: Pixabay

A redução das exportações, que é ruim para a economia brasileira, acaba evitando grandes aumentos nos preços das commodities, segurando a inflação. Além dos problemas com a inflação, Feldmann destaca outros problemas enfrentados pelo País, como o desemprego, o aumento da fome e a desindustrialização, também relacionados à inflação.

Entre os fatores que prejudicam a economia brasileira, estão ainda as taxas altas de desemprego e de trabalho informal, que resultam na diminuição do consumo da população. Além da saída de investidores estrangeiros do País, empresas brasileiras também devem segurar seus investimentos, aguardando o resultado das eleições presidenciais, previstas para o fim do ano.

A população sente

Para Feldmann, o impacto que a população sofrerá pela inflação alta é o pior dos problemas. Entre os complicadores, está a questão do Auxílio Brasil contemplar apenas um terço do número de famílias que deveria contemplar e do número de pessoas contempladas pelo auxílio emergencial. A situação intensifica o aumento da fome no País, que já alcança índices altos.

“Imagina-se que 2022 será um ano ruim, porque não foram tomadas as medidas adequadas em 2021 para resolver os problemas”, conta,  referindo-se a problemas como a fome, a pobreza e o desemprego.

Sobre o desemprego, destaca a falta de políticas do governo de geração de emprego, apoiadas na posição do ministro Paulo Guedes de não intervir na economia.

Fonte: Jornal da USP

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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