‘Faz escuro, mas eu canto’

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Vamos trabalhar pela alegria! Este, provavelmente, é o maior apelo do poeta Thiago de Melo, quando encerra o célebre poema “Faz escuro mas eu canto”, de 1965, com a angústia apaixonada da esperança, ao cravar a certeza de que a luz sempre chegará.  “Quem sofre fica acordado, defendendo o coração. Vamos juntos, multidão, trabalhar pela alegria, amanhã é um novo dia”. Poucas vezes ouvimos tantas lamúrias e imprecações por conta de anomalias deste obscuro momento político em que nos limitamos a demonizar os outros e, querendo ou não, buscando resguardar indiretamente nossa beatificação. Sentamos à mesa principal da Corte e nos erigimos juízes a condenar a tudo e a todos como se nada nos envolvesse. E desse pântano de indignação moralista não tiramos o pé, nem arrancamos razões gritantes e efetivas para fazer nossa parte, ou seja, voltar ao trabalho. O inferno não somos nós nem os outros. Isso é tarefa das instituições a quem cumpre apurar ilícitos à luz da lei. No máximo, podemos enxergar honestamente em nós os aplausos que emprestamos nos antecederam das anomalias e contravenções. A rigor, temos motivos de sobra para louvar a alegria de ver chegar à luz o debate ritualístico do expediente legal, constitucional. Com um olho no peixe outro no gato, porém, enquanto tocamos o batente da sobrevivência temos que mapear quem descumpriu os acordos de representação na defesa intransigente da cidadania, sem rancor, nem hipocrisia, apenas seguindo a sugestão do poeta: vigiar e trabalhar pela alegria.

No diapasão dessa simplicidade acordada, há que se ver claramente quem junta as farinhas ou quem desvia o pirão. Quem ajudou a conquistar e partilhar oportunidades, ou quem delas se valeu para tão somente se dar bem. A tarefa de ensinar e aprender neste debate o papel do voto é fundamental. A escolha de quem vai advogar nossas causas é um gesto sagrado. Por isso se reveste de importância crucial saber com quem podemos contar pra tocar o batente da reconstrução.

Vivemos, nos últimos anos, os estertores da abundância perversa, onde sobrou dinheiro até para alimentar redes de estripulias. Por que não nos juntarmos para garantir que as leis sejam cumpridas na destinação desses recursos para concretizar os benefícios para que foram criadas no atendimento efetivo das demandas sociais. Vamos listar algumas. As empresas recolhem verbas para quatro fundos estaduais. Desses recursos apenas funciona o conselho do Fundo das micros e pequenas empresas, exigência do Banco Central, que utiliza menos de 10% do total pago pelas empresas, aproximadamente R$1,3 bilhão/ano. São milhares de benefícios evitados a cidadãos excluídos do banquete dos bacanas. O fundo UEA, em torno de R$ 300 milhões/ano, teve uma formatação de Conselho encaminhada pela reitoria da instituição à Casa Civil, faz 2 anos. Outro fundo, o mais generoso, para Interiorização do desenvolvimento, quase 1 bilhão/ano, hoje está redirecionado integralmente para custeio da máquina pública. Vemos com entusiasmo as iniciativas mais ousadas do Tribunal de Contas do Estado na direção da maior transparência e o interior do Amazonas entregue ao deus-dará.

Os profissionais de saúde que atendem os hospitais da capital e do interior reportam graves problemas de gestão. Apontam esquemas viciados de aquisição de equipamentos e produtos, há mais de 4 décadas. E uma completa desvinculação entre o que é comprado e o que é efetivamente necessário. Equipamentos sofisticados sem ter quem opere e produtos como antibióticos e analgésicos sem reposição. Fossem utilizados os recursos com gestão transparente e competente não teríamos uma população tão doente e as distorções tão insistentes dos maus caminhos da contravenção. “Faz escuro mas eu canto”, poeta do beiradão amazônico, ora pro nobis, pois um novo dia começa a chegar.  Precisa chegar, transparência, já!

(*) Alfredo Lopes é ensaísta e consultor do Cieam.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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