Eternamente explorados 

“Todo dia apresenta um novo raio de esperança para o país que se autodenomina república. Pode ser que aos poucos nos tornemos uma república – reconhecendo e apoiando os menos favorecidos. Por ora, apenas os reconhecemos e os exploramos. Em praticamente todos os níveis e para todos os lados.”


Por Augusto Cesar Rocha
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É revelador quando fazemos interações com quem mora fora da Amazônia. Com praticamente total e absoluta frequência, quem mora nos centros econômicos do Brasil sempre se posiciona como explorador, como um imperialista, como um ser superior em relação ao entendimento e ao futuro da região. O que causa isso? Até quando teremos que conviver com esta condição? Por que é tão difícil a interação como iguais em uma república? 

Lembrando o Torrinho e “Porto de Lenha”, talvez seja pela ausência de determinadas cores de pele ou de olhos. O cancioneiro amazonense é revelador sobre a longevidade desta condição e uma eternidade potencial (“Porto de Lenha tu nunca serás Liverpool, com uma cara sardenta e olhos azuis” […]). A arte imita e relata a vida, mas pode ser que não seja só por isso, apesar de esta canção brilhante revelar um mundo de nossas relações. 

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Fundação São Vicente, primeira Vila fundada no Brasil Colônia, onde os brasileiros já eram ali explorados . (Foto: Wikipédia)

A república, com sua ideia do “bem” ou do “bem comum” está normalmente longe do íntimo dos exploradores. O manto do ajudar, tipicamente é um interior do explorador sagaz e da criação da subserviência. A questão que se põe e se impõe é: até que ponto isso pode ser dito? Até que ponto a revelação gera incômodo ou gera reposicionamentos fraternos? 

O respeito pode ser derivado da humildade, mas também pode vir da carência. O compartilhar vem da nobreza ou da riqueza real, do espírito ou do bolso. A ganância pelo ganho constante, pela apropriação do outro é um problemão no mundo contemporâneo, que é ao mesmo tempo tão rico, tão abundante, mas tão pobre e tão carente. 

Por vezes, a soberba pode ser derivada de uma pequenez de alma ou de uma extrema carência. Zonas muito competitivas possuem seus espaços todos ocupados, com poucas oportunidades de efetivo crescimento – com isso, apesar da aparência de “grande”, pode ser que o real não seja este. Regiões com potencial para ser desbravadas são mais vibrantes e possuem um enorme espaço para criação de riqueza e por isso atraem, desde sempre, todo o tipo de pessoas com um desejo de desenvolvimento. Foi assim na Austrália, no “novo mundo” norte-americano e nas rotas da seda.

Todo dia apresenta um novo raio de esperança para o país que se autodenomina república. Pode ser que aos poucos nos tornemos uma república – reconhecendo e apoiando os menos favorecidos. Por ora, apenas os reconhecemos e os exploramos. Em praticamente todos os níveis e para todos os lados. Já passou da hora de ajustar este comportamento. Este texto é mais uma tentativa – quem sabe escrevendo, ajudo em algo neste despertar ou, ao menos, relato mais uma percepção pessoal sobre a Amazônia e a sua relação com o Brasil. 

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Augusto Rocha é professor da UFAM e parceiro fundador do portal Brasil Amazônia Agora
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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