A universidade como ensaio de utopia: o espírito de Alexandria na Amazônia

“A Universidade do Estado do Amazonas, movida pelo espírito de Alexandria na Amazônia, ensaia o que ainda não é e antecipa, em passos ainda sutis, as utopias amazônicas”

O que é uma universidade?

A universidade é, antes de tudo, um estado de espírito, como destaca o professor André Zogahib, nosso reitor, quando insiste na necessidade de olharmos o mesmo problema sob diversos pontos de vista. Assim é mais coerente entender a postura de quem pensa com universalidade, com interdisciplinaridade. Uma postura provisória diante do inacabado, onde o conhecimento não se consome em certezas, mas arde em perguntas. Ela existe para provocar, não para domesticar.

Para inquietar, não para concluir. A universidade é um microcosmo em permanente erupção — um ponto de ignição entre o saber e o fazer. Sua finalidade não está em produzir diplomas, mas em despertar consciências. É um lugar de convívio do múltiplo, do contraditório, do inesperado. Sua necessidade nasce do fato de que nenhuma sociedade que se queira justa e viva pode abrir mão da inteligência crítica, da imaginação criadora e da coragem transformadora. A universidade é o espaço onde as utopias se ensaiam.

Alexandria e o espírito universal do saber

Lamentamos a perda da Biblioteca de Alexandria, esse templo antigo da inteligência acumulada. Mas esquecemos, com frequência, de que mais sagrada que a coleção de papiros era a interação viva que ali pulsava: a conversa entre saberes, a colisão entre escolas, a peregrinação de ideias. Alexandria era menos um acervo e mais um organismo. O que se perdeu em sua destruição não foram apenas documentos, mas a coreografia cósmica do pensamento em movimento. Hoje, no coração da Amazônia, entre igarapés e saberes originários, somos chamados a reencenar essa dinâmica. A EXPO UEA é nossa Alexandria viva.

Espírito DE ALEXANDRIA NA AMAZONIA

Inovação: entre sinapse e erupção

Inovar é transitar entre mundos. É criar sinapses entre o que parecia isolado: ciência e afeto, floresta e tecnologia, ancestralidade e algoritmo. O Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae-AM), em parceria inédita com a UEA, oferece agora uma amostra do que é possível quando a universidade ultrapassa seus muros: o Empretec — uma metodologia da ONU transformada em ferramenta amazônica de formação de protagonistas. O que se vê é mais que capacitação. É um ensaio coletivo de autonomia. Uma antecipação de mundos possíveis.

A Expo UEA como paisagem da inovação amazônica

Durante três dias — de 4 a 6 de agosto — o chão da universidade se transforma em vitrine, arena e provocação. Projetos como Ocean, STEM Criar, Escola do Futuro e Curupira mostram que inovação, aqui, tem sotaque amazônico e vocação pública. Não se trata de fetichizar a tecnologia, mas de colocá-la a serviço de uma nova economia da floresta em pé, da bioeconomia com justiça social e da soberania do conhecimento. Painéis sobre semicondutores, transformação digital, inteligência artificial, indústria da defesa, bioeconomia, drones e a visão do Polo Industrial mostram que a universidade não é apenas espectadora do futuro — ela o constrói, tece e programa.

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O conhecimento como antecipação da utopia

A universidade do Estado do Amazonas ensaia o que ainda não é. Ela antecipa, com gestos ainda tímidos mas pulsantes, as utopias amazônicas. Cada laboratório, cada projeto incubado, cada parceria como essa com o Sebrae-AM, é um gesto de ousadia civilizatória. E como ensinou Galeano, a utopia serve para isso: para que possamos continuar caminhando.

A Expo UEA Innovation é um chamado. Um ritual do espírito. Uma carta aberta à sociedade para lembrar que a universidade não é o fim de um ciclo, mas o início de uma caminhada. Que saber e fazer, aqui, não se separam. E que a Amazônia, com suas dores e potências, não será apenas estudada. Ela será recriada — por nós, com ela, desde dentro.

“O que a biblioteca de Alexandria foi no passado, queremos que nossa universidade seja no presente: não um depósito de saber, mas um espaço de encontros imprevisíveis.”

Antônio Mesquita
Antônio Mesquita
Antônio Mesquita é Diretor Executivo da Agência de Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual (AGIN) da Universidade do Estado do Amazonas-UEA.

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