“A Amazônia Industrial não pode mais ser refém do silêncio ou do constrangimento. É hora de superar o receio de ser julgada por seus impactos e assumir o orgulho de ser parte da solução. Não temos o luxo de esperar por regulação externa. O futuro da indústria — e da própria Amazônia — depende de escolhas firmes e conscientes feitas agora”
O anúncio recente da União Europeia, recuando da imposição de uma norma específica contra o greenwashing, revela mais do que um embate técnico. Mostra um dilema político, ético e geoeconômico: a dificuldade de transformar os compromissos com o clima em regras concretas que enfrentem interesses consolidados. Ao abrir mão de um marco regulatório rigoroso contra alegações ambientais enganosas, a Europa lança uma mensagem ambígua ao mundo. Mas essa ambiguidade, para a indústria amazônica, pode ser a senha de uma virada estratégica.
É hora de olhar para o Polo Industrial de Manaus com outros olhos — os da responsabilidade e da oportunidade. Em vez de nos acomodarmos na ausência de regras, devemos assumir uma posição de liderança voluntária. A sustentabilidade não pode ser apenas uma narrativa de marketing. Precisa ser vivida no chão de fábrica, nas planilhas contábeis, nas relações com fornecedores e, sobretudo, no compromisso com a floresta em pé e com as pessoas que vivem nela.
O Polo de Manaus tem, historicamente, cumprido um papel ambiental único: conter o desmatamento por meio da industrialização legal, gerando mais de 100 mil empregos formais em uma das regiões de menor índice de desenvolvimento do país. Esse modelo, aperfeiçoado com o tempo, não é apenas um instrumento fiscal — é uma plataforma de inclusão, de desenvolvimento regional e, agora, deve ser também uma referência em ESG genuíno.
O momento exige mais do que adesão simbólica a modismos empresariais. A pauta ESG precisa se consolidar como uma agenda coletiva, institucionalizada, auditável. Isso significa construir diretrizes conjuntas com entidades como o CIEAM, a SUFRAMA e os sindicatos setoriais, com metas e indicadores que vão além do discurso. Significa assumir que a transparência climática será o novo selo de competitividade internacional — e que quem estiver à frente disso colherá os frutos da confiança global.
“A ideia é introduzirmos cada vez mais esses pilares, que são tão importantes. O ESG não é apenas para as indústrias, é para todo ser humano”, afirmou.
Em reunião com CIEAM o superintendente da ZFM, Bosco Saraiva, ressaltou a relevância do tema para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
Podemos e devemos avançar em três frentes:
🔵 Primeiro, estabelecer um selo regional de integridade socioambiental com parâmetros rigorosos, validado por universidades e instituições independentes.
🔵 Segundo, comunicar ao mundo — com dados, não promessas — que o modelo Zona Franca, com todos os seus desafios, gera menos carbono, mais empregos e mais respeito ao território do que alternativas predatórias.
🔵 Terceiro, incluir a bioeconomia, a inovação e a capacitação profissional como pilares indissociáveis de qualquer plano industrial amazônico.
A indústria precisa vencer o receio de ser julgada por seus impactos e abraçar o orgulho de ser parte da solução. Não temos o luxo de esperar por regulação externa. O futuro da indústria, e da própria Amazônia, depende de escolhas firmes e conscientes hoje.
Que a ausência de uma norma europeia contra o greenwashing não nos sirva de alívio, mas de alerta. Se o mundo hesita, nós podemos — e devemos — liderar. A floresta em pé, a inovação sustentável e a integridade produtiva são ativos estratégicos. E o Polo Industrial de Manaus pode ser o exemplo que o planeta precisa.