Produção de cânhamo no Brasil pode gerar R$ 5,7 bilhões até 2030, afirma Embrapa

Relatório da Embrapa propõe ações para estruturar a cadeia do cânhamo no Brasil e prevê 14 mil empregos, inclusão social e usos industriais, medicinais e sustentáveis da planta.

A Embrapa e o Instituto Ficus lançaram, em setembro, o relatório Caminhos Regulatórios para o Cânhamo no Brasil, com apoio do Conselho de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Presidência da República (CDESS). O documento apresenta um plano estratégico para estruturar a cadeia produtiva da planta no país, com projeção de mais de 14 mil empregos e R$ 5,76 bilhões em receitas líquidas até 2030.

Durante seminário realizado em Brasília, especialistas defenderam que a regulamentação do cânhamo no Brasil representa uma oportunidade de impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento econômico sustentável. Segundo o economista Rafael Giovanelli, do Instituto Escolhas, a cultura tem rentabilidade superior a de commodities como soja e algodão, além de reduzir a dependência de importações.

O diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Clenio Pillon, destacou que a empresa tem como missão desenvolver ciência e inovação e que o país pode avançar em genética adaptada, sistemas de cultivo e aplicações industriais e medicinais. A atual Portaria 344/1998 da Anvisa, que proíbe o cultivo de cannabis, é vista como o principal entrave.

A proposta do relatório prevê ações regulatórias ainda em 2025, com a possível liberação do cultivo do cânhamo industrial. A expectativa é de que, em até cinco anos, o país esteja apto a realizar colheitas comerciais e iniciar exportações.

O documento também enfatiza a importância da inclusão social. Associações de pacientes e agricultores familiares podem integrar a cadeia produtiva com apoio técnico e regulatório, a exemplo do programa “Parcerias pro Mundo Melhor”, da empresa Centroflora.

Frasco de óleo de cannabis medicinal sendo segurado ao lado de planta de cânhamo, indicando aplicações na saúde.
Óleo de cannabis e planta de cânhamo: uso medicinal é uma das frentes de debate sobre regulamentação. Foto: Tinnakorn Jorruang/Getty Images.

Com mais de 25 mil aplicações catalogadas, o cânhamo é considerado um insumo promissor para setores como têxtil, bioconstrução, cosméticos e alimentação. Pesquisadores defendem a elevação do limite legal de THC nas plantas, hoje em 0,3%, para até 2%, como já ocorre em países vizinhos.

Modelos internacionais bem-sucedidos, como os do Paraguai e Uruguai, foram apresentados como referência para destravar a regulamentação e fomentar a pesquisa e a produção no Brasil.

Diferença de Cânhamo e Maconha

O cânhamo é uma variedade de Cannabis sativa L. cultivada para trabalho, não para “barato”. Tem teor muito baixo de THC — a substância psicoativa — e serve como insumo para tecidos, bioconstrução, cosméticos e alimentação (sementes e óleos ricos em CBD, sem efeito psicoativo). No campo, o manejo mira fibra e grão, com colheita e beneficiamento voltados à indústria.

Diferencia-se da cannabis de uso recreativo no objetivo e no resultado: enquanto a recreativa busca flores com alto THC, o cânhamo entrega matéria-prima para cadeias produtivas. Também são regras distintas. O cânhamo exige testes de THC e rastreabilidade, além de separação dos plantios para evitar cruzamentos. Regulamentar o cânhamo industrial não significa liberar a maconha recreativa; significa abrir uma frente econômica de base biológica, com potencial de gerar renda e inovação em diferentes setores.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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