Economia do Amazonas e os vilões do Ministro

Foto:Crityellen Marques

Alfredo MR LOPES (*) alfredo [email protected]

Os técnicos do ministério da Economia atestaram com seus cânones econométricos que contrapartida fiscal não ajuda e sim atrapalha a redução das desigualdades regionais. Na 12ª edição do Boletim Mensal sobre os Subsídios da União, os tais técnicos fazem uma análise sobre a alocação das 12 principais categorias de benefícios tributários. Confundem alhos com atalhos e provaram desconhecer a História da Economia do Brasil e do mundo. Talvez a leitura elementar do delicioso livro de Léo Huberman, “A história da riqueza do homem” lhes trouxesse um benefício elementar: descobrir a hipótese de mudar de profissão. Trata-se de um livro escrito para empolgar os jovens sonolentos quando estudam os tratados pesados de Economia. O autor utiliza as teorias econômicas para interpretar a História e, ao mesmo tempo, lança mão da própria História para tornar palatável o ensino da Economia. 

Incentivos e avanços 

Há controvérsias se entenderam a Formação Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior, a maior referência de compreensão da construção da riqueza e das desigualdades regionais do país. Ao descrever o processo de formação do capitalismo industrial ele fala de um problema que o país teve e ainda tem muitas dificuldades para resolver, a fragilidade de nossa infraestrutura, sobretudo a logística portuária e dos transportes. Mesmo assim, esse patamar  só foi alcançado por força de incentivos, a contrapartida fiscal, da qual São Paulo é exemplo e o maior usuário. E, é claro, o baixo custo da mão-de-obra, que propiciou o incremento à produção de matérias-primas. Adicionalmente, O desenvolvimento industrial brasileiro se deu com a ajuda da Primeira Guerra Mundial que deu um grande impulso à indústria e à economia nacional.

Custeio da máquina pública 

Outro ponto levantado por Caio Prado diz respeito a dois fatores: a Abertura dos Portos e do Rio Amazonas às nações estrangeiras e a transferência da família real para o Brasil. O capital internacional passou a investir nas “commodities” desde então. E “… a chegada dos nobres ao Brasil leva a uma grande mudança nos hábitos coloniais, causando uma sofisticação das elites locais”. Com a República, o esvaziamento da nobreza deu lugar à casta burocrática que consolidou a elevação dos custos de importações de produtos de luxo e o exorbitante custeio da máquina pública. A partir daí o custeio do Brasil viverá em constante déficit orçamentário. 

Economia levada a sério 

No caso da economia do Amazonas e da Amazônia Ocidental, a contrapartida fiscal de 8,5% do bolo fiscal do Brasil – com usufruto concentrado em mais da metade na região Sudeste, a mais próspera – houve uma mudança substantiva da paisagem socioeconômica. Isso foi detalhadamente explicado pelo trabalho da Fundação Getúlio Vargas, “ZFM, impactos, Efetividade e Oportunidades”sob coordenação do professor Márcio Holland, pós-doutor em Economia, apresentado ao novo governo de orientação liberal. 

Confisco com fins burocráticos 

Os avanços foram consistentes, tanto do ponto de vista educacional, socioeconômico e ambiental. Trata-se do programa fiscal que mais devolve ao contribuinte nas contrapartidas entre impostos e benefícios. Esta modelagem de desenvolvimento só não é melhor resolvida porque mais da metade da riqueza gerada é apropriada pelo poder público, e quase tudo para financiar a nova casta da máquina burocrática, a elite funcional parlamentar, jurídica e executiva. Um formato gerencial que é radicalização perdulária da herança lusitana.

Os vilões  do ministro

Segundo a Agência Brasil, no ano passado, apenas os estados do Amazonas, Santa Catarina e São Paulo se beneficiaram mais de renúncias tributárias proporcionalmente ao que contribuíram para o Produto Interno Bruto (PIB). Carece de demonstração a assertiva. A rigor, o trabalho – que não menciona a orgia fiscal do sistema financeiro – sugere, ao menos no caso do Amazonas, o desconhecimento do papel que, por exemplo, o Polo Industrial de Manaus representa na ativação de 80% na economia estadual e outros tantos no fomento regional e nacional de oportunidades. Esses dados estão disponíveis no sítio da Receita. Ocorre que o melhor cego, ou o mais útil na caça aos supostos vilões, é aquele que não quer enxergar. 

(*) Alfredo PUC-SP, UFAM e USP, filósofo, ensaísta, consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas. 

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Nova enzima sustentável na indústria de papel promete corte de poluentes

Nova enzima sustentável na indústria de papel reduz químicos tóxicos e avança com solução baseada em resíduos agrícolas e bioeconomia.

Idesam oferece até R$ 200 mil em prêmios no Desafio Bioinovação Amazônia

Idesam abre inscrições para desafio de bioinovação na Amazônia, com prêmios de até R$ 200 mil e apoio técnico para soluções sustentáveis.

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.