“Quando um entregador em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba ou Recife adquirir uma motocicleta financiada pela nova linha de crédito anunciada pelo governo federal, dificilmente imaginará que parte da história daquele veículo começa a milhares de quilômetros de distância, no interior da Amazônia.”
A princípio, a relação parece improvável.
De um lado, a rotina acelerada das cidades, os aplicativos, as entregas, a busca por renda e mobilidade. Do outro, uma floresta que ocupa quase metade do território nacional e cuja importância costuma ser discutida em conferências climáticas, relatórios científicos e debates diplomáticos.
Mas o século XXI tem aproximado mundos que antes pareciam separados.
A motocicleta que ajuda um trabalhador a cumprir suas entregas provavelmente saiu de uma linha de montagem de Manaus. Mais de 95% da produção nacional nasce ali, em um polo industrial frequentemente reduzido a uma discussão tributária, como se sua existência pudesse ser explicada apenas por incentivos fiscais ou arrecadação.
Há muito mais acontecendo naquela equação.
Enquanto as fábricas produzem milhões de motocicletas, bicicletas e componentes eletrônicos, a floresta ao redor executa silenciosamente uma tarefa que nenhum parque industrial do mundo conseguiu reproduzir. Ela regula temperatura, distribui umidade, armazena carbono e ajuda a estabilizar fenômenos climáticos dos quais dependem lavouras, reservatórios hidrelétricos, cidades e cadeias produtivas espalhadas pelo continente.
A economia costuma registrar com precisão o valor de uma motocicleta.
Sabe quanto custa o aço. Sabe quanto custa o alumínio. Sabe quanto custa a bateria. Sabe quanto custa o transporte.
Mas ainda encontra dificuldade para calcular o valor da chuva que irriga as plantações do Centro-Oeste, da estabilidade climática que reduz perdas agrícolas ou do carbono que deixa de alcançar a atmosfera porque continua armazenado em bilhões de árvores.
Talvez seja por isso que parte do debate sobre a Zona Franca de Manaus continue envelhecida.
Durante décadas, discutiu-se o custo do modelo.
Pouco se discutiu o custo de sua ausência. O que aconteceria com a Amazônia se os empregos formais desaparecessem? O que ocorreria com a floresta se milhões de pessoas passassem a depender exclusivamente de atividades predatórias para sobreviver? Quanto custaria ao Brasil substituir os serviços ambientais prestados gratuitamente por um território preservado?
Nenhuma dessas perguntas cabe facilmente em uma planilha.
Ainda assim, elas começam a aparecer no centro das decisões econômicas globais.
Empresas, bancos e investidores passaram a observar não apenas quanto um produto custa para ser fabricado, mas qual é sua pegada ambiental, sua intensidade de carbono e sua compatibilidade com uma economia que tenta reduzir emissões.
Nesse cenário, a Amazônia deixa de ser apenas um patrimônio natural.
Passa a ser um diferencial econômico.
A floresta preservada funciona como uma espécie de infraestrutura invisível. Não possui concreto, aço ou cabos de transmissão. Não aparece nos balanços patrimoniais. Não exige inaugurações. Mas influencia a produtividade agrícola, a disponibilidade de água, a estabilidade climática e a própria reputação ambiental dos produtos brasileiros.
É uma riqueza que trabalha todos os dias sem emitir fatura.
Talvez esteja aí o aspecto mais interessante da nova política de crédito para motocicletas e bicicletas elétricas.
O programa foi concebido para ampliar renda, modernizar a mobilidade urbana e apoiar trabalhadores de aplicativos. Entretanto, ao estimular a produção de veículos fabricados em Manaus, acaba reforçando uma cadeia econômica singular, onde indústria, tecnologia e conservação ambiental convivem no mesmo território.
Em poucas regiões do planeta seria possível encontrar combinação semelhante.
De um lado, um dos maiores polos produtores de duas rodas do mundo. Do outro, a maior floresta tropical remanescente da Terra. Entre ambos, uma relação raramente percebida.
As motocicletas saem das fábricas. Os empregos saem das fábricas. Os tributos saem das fábricas. Mas a competitividade climática que começa a distinguir esses produtos nasce principalmente daquilo que permaneceu de pé ao redor delas.
A transição energética costuma ser representada por baterias, motores elétricos e novas tecnologias.
Na Amazônia, ela talvez possa ser contada de varias maneiras. A história de um entregador financiando sua ferramenta de trabalho. A história de uma indústria gerando emprego formal. E a história de uma floresta que, mesmo sem aparecer na nota fiscal, continua agregando valor ao que o Brasil produz.
Poucos ativos nacionais reúnem essas três dimensões ao mesmo tempo. Provavelmente, seja por isso que a discussão sobre a Amazônia esteja mudando de natureza.
A pergunta já não é apenas quanto custa preservá-la.
A pergunta que começa a surgir é quanto vale para o Brasil continuar contando com ela.