Editorial BAA
Os Estados Unidos, outrora bastião da liberdade e – junto com os comunistas – protagonistas na derrota do nazismo, hoje parecem encenar a mais perversa ironia da história: liderados por Donald Trump, passam a exibir sintomas de um mandonismo autocrático que remete justamente àquilo que um dia combateram.
A demissão arbitrária de Lisa Cook, diretora do Federal Reserve, através de Redes Sociais, fere de morte a independência de uma das instituições mais respeitadas do planeta. Não se trata apenas de substituir um nome: é a tentativa explícita de subjugar a técnica e a ciência econômica ao capricho de um governante. Lisa Cook se recusa a renunciar e já está recorrendo à Justiça.
Na arena internacional, a escalada é ainda mais alarmante. Tarifas de 50% contra o Brasil, ameaças de sobretaxas de 200% à China, exigências de submissão da indústria global de semicondutores e bravatas de anexar Canadá, Groenlândia e Canal do Panamá compõem um mosaico de coerção, chantagem e revisionismo imperial. Não são “excentricidades” de linguagem, mas instrumentos de guerra econômica e psicológica, capazes de desestabilizar cadeias produtivas, alianças históricas e equilíbrios diplomáticos.
A convocação do embaixador norte-americano em Paris, após acusações descabidas sobre o combate ao antissemitismo na França, expôs outro flanco do desvario: a diplomacia como palco de intimidação. Ao insinuar cumplicidade da França com práticas antissemitas, Trump e seu representante alinham-se a uma lógica maniqueísta que ecoa a retórica de setores extremistas em Israel contra a Palestina — um autoritarismo disfarçado de defesa, um “nazismo às avessas” que criminaliza povos inteiros em nome de uma suposta segurança absoluta.

Há um fio condutor que une todos esses episódios: a centralização absoluta do poder na figura de um líder que não admite limites, que não reconhece regras e que vê instituições, tratados e alianças apenas como obstáculos descartáveis. O resultado é um projeto autocrático de proporções globais, que ameaça tanto a democracia americana quanto a estabilidade internacional.
O mundo precisa enxergar esse risco sem ilusões. O autoritarismo não se instala apenas com tanques nas ruas; ele se infiltra também por tarifas abusivas, demissões autoritárias, bravatas expansionistas e intimidações diplomáticas. A história já ensinou — a duras penas — que a tolerância com tais abusos abre caminho para tragédias maiores.
A comunidade internacional tem diante de si uma escolha: normalizar os devaneios de Trump como folclore político ou denunciá-los pelo que são — amostras eloquentes de um desvario autocrático que ameaça reescrever o século XXI sob as sombras de um novo autoritarismo.
