Dia do Amazonas e da Amazônia: memória, modernidade e homenagem a Márcio Souza

Coluna Follow-Up

O dia 5 de setembro marca um momento decisivo na história brasileira: em 1850, foi instalada a Província do Amazonas, separando-a do Grão-Pará, Maranhão e Rio Negro. Aquele ato administrativo, ao mesmo tempo geopolítico e simbólico, foi mais do que uma reorganização territorial.

Representou a conquista de voz própria para uma região que já havia vivido experiências dramáticas de autonomia, exclusão e resistência. Desde então, Amazônia e Amazonas se reconhecem como partes de um mesmo corpo, cujos destinos se entrelaçam em um único “U” de desafios e propósitos.

Vista de duas fachadas do Palacio dos Governadores do Grao Para obra de Antonio Jose Landi. Reproducao Acervo FAU USP 1
Vista de duas fachadas do Palácio dos Governadores do Grão-Pará, obra de Antônio José Landi – Reprodução Acervo FAU-USP

Poucos anos antes da criação da Província, a Amazônia foi palco da mais sangrenta revolta social da história do Brasil: a Cabanagem (1835–1840). Nesse período, índios, negros, mestiços e pobres do Grão-Pará e do Rio Negro ergueram-se contra a opressão, a fome e o abandono, proclamando uma guerra pela dignidade. Estima-se que 40% da população tenha perecido, num massacre que o Brasil oficial preferiu relegar ao esquecimento.

Para o escritor Márcio Souza (1946–2025), a Cabanagem é a prova de que nossa história não foi feita apenas de conciliações pacíficas, mas também de sangue derramado em nome de princípios. O mito de uma formação nacional “incruenta” serviu, por muito tempo, para mascarar violências estruturais. A Amazônia, com sua guerra esquecida, revela um país erguido também sobre as ruínas de suas revoltas populares.

“Dezessete anos de guerra civil levaram a Amazônia a perder 40% dos seus habitantes. A anexação destruiu todos os focos de prosperidade. (…) E o vento levou o Grão-Pará.”
(Márcio Souza)

Em 2005, Márcio Souza publicou o ensaio “Afinal, quem é mais moderno neste país?”, no Dossiê Amazônia Brasileira I. Ali, questionou a narrativa dominante que insiste em classificar o Norte como região atrasada e subsidiada. Para ele, essa oposição entre “Brasil moderno” e “Amazônia arcaica” é uma inversão histórica. A região sempre foi palco de experiências de modernidade:

  • No século XVIII, sob o Marquês de Pombal, o Grão-Pará experimentou uma agricultura de pequenos proprietários, com relativa participação de trabalhadores livres.
  • No século XIX, foi protagonista de uma economia extrativista exportadora que colocou a borracha amazônica no centro da Revolução Industrial.
  • No século XX, inaugurou com a Zona Franca de Manaus um ciclo de industrialização que continua a gerar empregos, tecnologia e arrecadação para todo o país.

“Se há uma região brasileira que melhor conheça a experiência da modernidade, esta é a Amazônia”, escreveu Souza. Seu pensamento desafia os preconceitos que ainda hoje enxergam a região apenas como “reserva de recursos” ou “território primitivo”, ignorando sua tradição urbana, cultural e científica. Para ele, o erro histórico do Brasil sempre foi impor modelos externos, sem respeitar a história e a experiência local.

“Certamente, no caso da Amazônia, o rótulo de região atrasada tem sido foco de desastres. (…) Se há uma região brasileira que melhor conheça a experiência da modernidade, esta é a Amazônia, como prova a sua própria história.”
(Márcio Souza)

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Essa visão ajuda a compreender por que a criação da Província do Amazonas em 1850 não pode ser lida como separação, mas como afirmação de unidade. O Amazonas nasce como parte da Amazônia e, ao mesmo tempo, como sujeito político singular. Se a Cabanagem expôs o trauma da ausência de diálogo entre o Império e o Grão-Pará, a instalação da nova Província ofereceu uma possibilidade de recomposição institucional, ainda que sob as contradições de um país centralizado no Rio de Janeiro.

Ao revisitarmos esse percurso em 2025, ano em que nos despedimos de Márcio Souza, percebemos a atualidade de sua obra. Ele nos ensinou que a Amazônia não é atraso, é vanguarda. Que nossas cidades, desde Belém até Manaus, sempre foram espaços de intensa vida cultural, intelectual e política. Que nossos povos, indígenas e urbanos, já experimentaram diversas formas de modernidade. Que a floresta, longe de ser apenas paisagem, é parte constitutiva de uma civilização complexa e original.

Celebrar o Dia do Amazonas e da Amazônia é, portanto, mais do que rememorar datas históricas. É reconhecer uma identidade partilhada, feita de lutas, perdas e conquistas. É afirmar que só seremos capazes de enfrentar os dilemas contemporâneos — das mudanças climáticas à justiça social, da bioeconomia à soberania nacional — se compreendermos essa história em sua inteireza.

A Amazônia não deve ser reserva de nada, nem celeiro, nem estoque genético ou espaço do rústico para deleite dos turistas pós-industriais.
(Márcio Souza)

Márcio Souza deixa como legado a provocação essencial: quem é, afinal, mais moderno neste país? Ao inverter a lógica do olhar sulista sobre a Amazônia, ele nos devolveu autoestima e nos convidou a pensar a região como sujeito do futuro, não como coadjuvante do passado.

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(Foto: Alberto César Araújo/Acervo Amazônia Real).

No dia 5 de setembro, celebramos o Amazonas e a Amazônia como um só corpo de esperanças e responsabilidades. E, neste ano de 2025, celebramos também a memória de um de nossos maiores intérpretes, cuja palavra segue viva: a Amazônia não precisa ser inventada, precisa ser compreendida.

Coluna Follow-Up é publicada às quartas quintas e sextas-feiras no Jornal do Comércio do Amazonas sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes Brasil Amazônia Agora

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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