Governo Bolsonaro omitiu dados de desmatamento da Amazônia na COP, comprova documento

Os dados do INPE sobre desmatamento na Amazônia já estavam prontos três semanas antes da realização da COP27, mas governo optou por não dar transparência – pelo segundo ano seguido.

A data da nota técnica do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que comunica a taxa anual do desmatamento na Amazônia Legal – divulgada nesta quarta-feira (30) em seu site na internet — confirma que o governo de Jair Bolsonaro já tinha em mãos o número, mas o omitiu durante as reuniões da COP27, a conferência mundial do clima, realizada no Egito neste ano.

A nota do INPE, obtida pela Agência Pública, foi redigida no dia 3 de novembro, enquanto a COP27 começou no dia 6. Depois de redigidas pela área técnica do INPE, as notas anuais são passadas à direção do INPE, que as envia imediatamente ao seu órgão superior, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Tradicionalmente, o governo brasileiro divulgava publicamente a taxa antes ou durante as COPs, num gesto de transparência para a comunidade internacional. Isso mudou com a chegada de Bolsonaro à Presidência. Em 2021, na COP realizada em Glasgow, na Escócia, a taxa também já era conhecida pelo governo Bolsonaro, mas foi escondida na conferência.

Conforme a Pública antecipou com exclusividade no último dia 17, a taxa de 2022 indicou uma redução no desmatamento. O número – relativo ao período de 1 de agosto de 2021 a 31 de julho de 2022 – foi de 11.568 km² desmatados na Amazônia Legal, uma queda de 11,27% em relação ao número relativo a 2021, que foi de 13.038 km².

De qualquer forma, o número continua muito alto – o que pode explicar a decisão do governo de omitir a taxa durante a COP.

Em nota divulgada nesta quarta-feira (30) sobre a taxa informada pelo INPE, o OC (Observatório do Clima), uma coalizão que reúne mais de 70 organizações ambientalistas, afirmou que “Bolsonaro encerra governo com alta de 60% no desmate na Amazônia” na comparação com os quatro anos anteriores, durante os governos de Dilma Rousseff (2011-2016) e de Michel Temer (2016-2018).

Segundo o OC, “é a maior alta percentual num mandato presidencial desde o início das medições por satélite, em 1988”. O OC salientou que o dado do INPE estava pronto desde antes do início da COP27, mas “o governo optou por escondê-lo por três semanas”. “É o segundo ano consecutivo em que o ministro do Meio Ambiente vai à conferência do clima com os dados e deixa para divulgá-los depois.”

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O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, durante discurso na COP27, no Egito (Foto: Divulgação/Ministério do Meio Ambiente)

A área total desmatada no período 2021-2022 é equivalente à da Jamaica, diz o OC. “Apesar da queda de 11% em relação a 2021, há 13 anos não era registrada uma taxa tão alta nos nove Estados da Amazônia Legal. A média anual sob Bolsonaro foi de 11.396 km², contra 7.145 mil km² no período anterior (2015-2018)”, diz a nota do OC.

Na nota divulgada pelo OC, o secretário-executivo da coalizão, Marcio Astrini, declarou que “o regime Bolsonaro foi uma máquina de destruir florestas. Pegou o país com uma taxa de 7.500 km² de desmatamento na Amazônia e o está entregando com 11.500 km². A única coisa a comemorar é o fato de que este governo chegou ao fim”.

De acordo com os dados divulgados pelo INPE, no período 2021-2022 o desmatamento recuou em todos os Estados que formam a Amazônia Legal, com exceção de um, o Amazonas. Houve uma verdadeira “explosão” no desmatamento no Amazonas, segundo a análise do OC, com a derrubada de 2,6 mil km², um aumento de 13% em relação ao ano anterior.

“Além da inação do Ibama, o aumento do corte raso no Amazonas é explicado pela expectativa de asfaltamento da BR-319 (Manaus-Porto Velho), rodovia que corta o maior bloco de florestas intactas da Amazônia. Em julho, o governo Bolsonaro concedeu licença prévia para a obra, atropelando pareceres de técnicos do próprio Ibama. A tendência atual no Amazonas, caso nada seja feito, é que se repita no eixo da BR-319 a tragédia ocorrida no entorno da BR-163 (Cuiabá-Santarém), no Pará, que se transformou no epicentro do desmatamento no começo do século, após o anúncio de sua pavimentação”, diz a nota do OC.

Fonte: Agência Pública

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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