Cientistas descobrem nas águas da Australia a maior planta do planeta

Por Suzana Camargo

A descoberta se deu por acaso. Pesquisadores australianos estavam mergulhando nas águas rasas de Shark Bay, a cerca de 800 km ao norte da cidade de Perth, para entender melhor como era o crescimento de gramas marinhas (seaweeds, em inglês). Para isso, precisavam fazer a coleta de DNA das plantas. Os cientistas então começaram a analisar uma espécie em particular, a Posidonia australis, que possui longas folhas verdes, que fazem lembrar fitas, que dançam no mar com o movimento das correntes marítimas. Todavia, eles levaram um susto ao constatar seu tamanho: ela tinha 180 km de extensão.

“O resultado nos surpreendeu: era uma planta só. Uma única planta se estendendo por um trecho de 180 km, tornando-se a maior planta conhecida na Terra”, contou Jane Edgeloe, bióloga marinha da University of Western Australia e principal autora do artigo científico publicado nesta quarta-feira (01/06) na revista Proceedings of the Royal Society B em que a incrível descoberta é descrita.

E como exatamente os pesquisadores conseguiram determinar a extensão da planta? “Coletamos amostras de brotos de dez prados de grama marinha de toda a Shark Bay, em águas onde os níveis de sal variam da salinidade normal do oceano a quase duas vezes mais salgadas. Em todas as amostras, estudamos 18 mil marcadores genéticos para mostrar que 200 km² de prados de gramas marinhas se expandiram a partir de uma única muda colonizadora“, diz Jane.

Ela explica ainda que esses prados de gramas marinhas subaquáticas crescem de duas maneiras: por reprodução sexual, que os ajuda a gerar novas combinações de genes e diversidade genética, e também por estender seus rizomas, os caules subterrâneos de onde emergem raízes e brotos.

E não foi só a enorme extensão da Posidonia australis que chamou a atenção dos envolvidos na análise, que indica também que a planta apresenta o dobro de número de cromossomos de outras similares. Além disso, foi estimada a idade dessa gigantesca planta. A conclusão a que se chegou é que ela tem aproximadamente 4.500 mil anos!

Sabe-se que as dunas de areia de Shark Bay foram inundadas há aproximados 8.500 anos, quando o nível do mar subiu, após a última era glacial. Ao longo dos milênios seguintes, os prados de gramas marinhas se expandiram e baseados no seu tamanho e média de crescimento estimou-se a idade milenar da Posidonia australis.

“Nossa planta pode de fato ser estéril. Isso torna seu sucesso nas águas variáveis de Shark Bay um enigma: as plantas que não fazem sexo tendem a ter também baixos níveis de diversidade genética, o que deve reduzir sua capacidade de lidar com ambientes em mudança”, revela a bióloga.

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Flores da Posidonia australis (Foto: Ângela Rossen)

Gramas marinhas produzem frutas, flores e sementes anualmente e têm um papel importantíssimo na absorção de carbono. Vale lembrar que os oceanos absorvem de 20 a 30% das emissões humanas de CO2, um dos gases apontados como sendo o principal responsável pelo aquecimento global.

“As gramas marinhas não estão imunes aos impactos das mudanças climáticas: o aquecimento das temperaturas, a acidificação dos oceanos e os eventos climáticos extremos são um desafio significativo para elas. No entanto, a imagem detalhada que temos agora da grande resiliência dessas gigantes de Shark Bay nos dá esperança de que elas continuarão por muitos anos, especialmente se forem tomadas medidas sérias sobre a crise climática”.

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As águas rasas e salgadas de Shark Bay (Foto: Ângela Rossen)

Texto publicado originalmente em Conexão Planeta 01/06/202

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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