Brasil: a política e a mobilização da sociedade solidária

Na mensagem enviada ao povo brasileiro, por ocasião do tricentenário de Aparecida, o Papa Francisco resume o momento em que vivemos, a obstinação em forma de sociedade que somos, e a capacidade que temos de seguir em frente, impregnadas do espírito colaborativo e da certeza de que iremos seguir de cabeça erguida. Disse ele: “E o Brasil, hoje, necessita de homens e mulheres que, cheios de esperança e firmes na fé, deem testemunho de que o amor, manifestado na solidariedade e na partilha, é mais forte e luminoso que as trevas do egoísmo e da corrupção”.

O aparente silêncio da sociedade – com os absurdos diários de seus dirigentes – se expressa no índice de popularidade do presidente. Ele é o mais desprestigiado entre os gestores do mundo inteiro. Apesar disso, a população segue fazendo sua parte, trabalhando, empreendendo e buscando saídas. A economia mostra essa dissociação institucional: a política segue andando para trás e o cidadão segue em frente. Buscar saídas é muito melhor do que lamentar os entraves. E quem atua na grandiosidade de recursos, potencialidades e desafios da Amazônia não tem direito de pensar pequeno.

‘Vamos trabalhar!’

E quais são os verdadeiros embaraços que nos desafiam senão aqueles que exigem o abandono do personalismo barato e da vaidade estéril e nos aproximam, em energia, habilidades e cumplicidade cívica, no enfrentamento corajoso. Um destes imbróglios é a questão logística. Em artigo no Infomoney, dando uma aula de quem circula com desenvoltura entre os livros e o batente produtivo, o professor e empreendedor Augusto Rocha voltou a apontar para as obviedades de implantar um Hub de transportes no coração da floresta.

Reduzir a cangalha tributária do combustível, embora evidente e prosaico, é a pedra de toque para convidar o mundo a passear de avião na floresta. Sem o lobo mau do proibicionismo e nem chapeuzinho vermelho da demagogia. Pegar ou largar, neste vácuo de vetos e descasos amazônicos. A proposta do professor Augusto, que coordena a divisão logística do setor produtivo da ZFM, tem uma premissa futurista e libertária: “Vamos trabalhar!”.

Inovação, tecnologia e indignação

O governador Amazonino Mendes, um caboco nascido e criado nas surpresas fluviais do Rio Juruá, o bioma mais denso em fartura de alimentos, fármacos e energia da Amazônia, ficou encantado, num colóquio com os empresários do polo industrial de Manaus, antes das eleições, ao saber que os clones da seringueira de sua região, a terra firme do Juruá, são a vedete do Centro de Nanobiotecnologia de São Carlos, da Embrapa Instrumentação. Eles se ajustam às demandas de empresas de pneus, preservativos e luvas hipodérmicas na área de saúde.

A Embrapa fornece as mudas, as empresas do Noroeste paulista plantam como os ingleses há 100 anos plantavam na Malásia, a economia gira e faz de São Paulo o maior produtor de látex do Brasil. No Juruá, crescem as mais robustas espécies da Hévea Brasiliensis, a seringueira, uma espécie que os ingleses tratavam como a Árvore da Fortuna. Elas fizeram o Ciclo da Borracha, que revelou o esplendor de nossa omissão e a euforia econômica dos ingleses, com a agregação de 60% de valor de sua economia.

O laboratório inteiro de nanobiotecnologia, em São Carlos, custou R$ 3 milhões. As indústrias incentivadas de informática recolheram, segundo a Suframa, entre 2013 a 2016, R$ 2,4 bilhões para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Sabe o que sobrou para o Amazonas?  Chegou a hora da insurreição coletiva contra o boicote insano a tantos benefícios adiados para a população e para o próprio Brasil.

A chance da hora

O reconhecimento dos acertos da ZFM, os ativos amazônicos ambientais do Acordo do Clima e a condenação dos incentivos a indústria automobilística e eletroeletrônica no Sudeste, a região MSU’s rica do país, por parte da OMC, Organização Mundial do Comércio, são a senha para apostarmos na possibilidade de promover a cooperação internacional, cuidar do planeta e, ao mesmo tempo, manter robusto esse imenso patrimônio, construindo aqui um novo arranjo produtivo, não-predatório, fincado na inovação tecnológica.

O mundo já sabe que criamos, com os incentivos da renúncia fiscal, uma economia paradigmática. O mundo ja sabe, também, que aqui habitam as respostas para as demandas de energia limpa, da longevidade das pessoas, a chamada Indústria da juventude perene, a alimentação saudável que dá saúde e bom humor para a humanidade. Será que nos demos conta disso e, sem qualquer explicação, insistimos em protelar a virada?

Vamos acabar com o faz-de-conta?

Com o desempenho da economia do Amazonas, demonizada há meio século pela incompreensão dos empresários da região mais progressista do Brasil, a indústria atuante na região passa a viver o reconhecimento de sua coragem e a exaltação de sua resiliência. E reivindica que os recursos aqui gerados sejam aqui aplicados. Promover novas pesquisas é apostar na construção perseverante de novos paradigmas de desenvolvimento, na busca pela harmonia socioambiental no processo de geração de riqueza, com uso inteligente e sustentável dos recursos naturais. Inovação, nanotecnologia e planejamento de novas saídas. Vamos acabar com o faz-de-conta?

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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