Brasil, Amazônia, a economia e a cidadania

Um lastro de ódio e vingança será o rescaldo de um Brasil partido, herança da demagogia do ressentimento entre as classes sociais. Temos assistido, entre estarrecidos e inquietos, ao acirramento do conflito político que não tem desembarcado em vantagens objetivas para a economia e muito menos para a cidadania, posto que escondem blefes, surpresas e enganações digitais de parte a parte. O momento é crucial para a história do Brasil.

Na contramão desses conflitos e desencontros – quando vivemos às vésperas de mais um pleito eleitoral – a palavra de ordem é privilegiar a sinergia criativa e proativa e abraçar novos patamares de cidadania. Este é o clamor da economia, nosso setor produtivo tão bombardeado e confiscado de recursos que deveriam ser aplicados no tecido social. Certamente o clamor é também do cidadão, cujo exercício diário de cidadania tem sido marcado pela violência, desemprego, saúde pública deficitária e ensino de qualidade sofrível.

Não causamos esta crise, pensando na ótica do Amazonas, mas fomos os mais atingidos por ela, sem poder contar com a mobilização de nossa representação política, empenhada em salvar a própria pele. E o mais grave, seguimos açoitados pela precária infraestrutura que nos privou de competitividade, pelo confisco de verbas que nos permitiriam diversificar e regionalizar a economia. Fôssemos mais protagonistas no âmbito de todas as entidades do setor produtivo, ensaiaríamos o que agora nos compete fazer, atuar em bloco, no protagonismo de afirmação de direitos e deveres de parte a parte, separando economia e conflito político em nome do interesse geral.

Com brasilidade e responsabilidade

Estamos acostumados a usar na física a palavra sinergia, que descreve o exercício da inteligência elucidativa das conexões. Para os gregos, a Física, a Physis, representa a natureza é tudo o que nela contém, incluindo a polis, a cidade, na qual o homem, sua inteligência, desejo e necessidades estão inseridos. É na polis que as pessoas estão atrás de novas saídas, sejam econômicas, socioambientais e de tecnologia da inovação.

Sinergia e política, portanto, são a face de uma única moeda, heranças valiosas da Grécia antiga, que querem simbolizar a necessidade de unir e organizar a polis, isto é, a vida social. Sinergia política, portanto, é junção da necessidade de promover a coesão das partes, dos membros da coletividade para consolidar o bem comum. E será exatamente este o mote ou o palpite para reconstruir a unidade estadual e nacional, com brasilidade e responsabilidade.

Condutas de superação

Findo o jogo político, o Brasil e o Amazonas não podem descambar para o confronto estéril, nem reverberar a ideologia do rancor, que não produzirá nada mais do que ódio, perseguição e atraso. Temos de ficar atentos à tentação tributária que costuma se transformar em corda que arrebenta nas costas de quem produz, trabalhadores e empreendedores. Já vivemos sob o jugo de um custo tributário insuportável com uma contrapartida cívica lastimável. E todos já começam a ver claramente para onde vai tanta compulsão fiscal.

Estamos empanturrados das manchetes da corrupção, distorção de valores e manipulação das verdades, e das promessas ocas, de quem poderia fazer e não fez. Basta de guetos políticos a disfarçar confrarias mafiosas que estão levando o Brasil ao abismo da exclusão, do atraso e da desesperança. Temos que ficar atentos as instituições. A elas caberá o papel de assegurar o estatuto legal e a ordem social.

Siga o dinheiro

A expressão ‘Follow the money’ (siga o dinheiro) nos dará um instrumento de observação da gestão pública. Essa expressão, cunhada durante o lendário impeachment do presidente Richard Nixon, dos Estados Unidos, legou a noção da Transparência como instrumento efetivo de apurar ilegalidades e resguardar o sentido prático da Democracia. Para onde tem ido a riqueza produzida no Amazonas?

Nas últimas duas décadas, quando o setor produtivo do Amazonas tinha um crescimento exponencial, o Estado do Amazonas superou, em termos de arrecadação comparada, a geração da riqueza do Ciclo da Borracha, quando contribuíamos com 45% do PIB do Brasil nas folias perdulárias do látex.

A Zona Franca de Manaus, neste período, bateu recordes seguidos de arrecadação, abarrotou os cofres públicos, locais e federais, porém não alcançou o cidadão. A gestão caolha da abundância se revelou socialmente perversa, politicamente corrompida, e economicamente desastrosa. Recursos da ordem de R$ 8 bilhões, pagos pela indústria, e destinados à interiorização do desenvolvimento, no período, foram e são aplicados progressivamente no ‘custeio’ da máquina pública e da gastança sem fim. Apesar das promessas, as entidades que representam o setor produtivo não têm assento na gestão desses recursos integralmente pagos pela indústria.

Pesquisa e desenvolvimento

A União beliscou 54% da riqueza aqui gerada e 80% das verbas destinadas a pesquisas regionais de fomento econômico. O Estado confiscou, em governos recentes, mais de R$1 bilhão da UEA. Sem conhecimento não há desenvolvimento, essencial para o combate da pobreza e redução das desigualdades. Os jovens estão perambulando pelas ruas do desemprego e do ilícito, carentes de novos parâmetros da receita pública focada no crescimento socioeconômico.

Há um clamor generalizado pela diversificação e interiorização da economia e da prosperidade a partir do aproveitamento sustentável das riquezas naturais. Uma convicção que, à luz da concentração de negócios na capital, se confirma na multiplicidade de iniciativas de atores e setores empenhados em estudar, propor e materializar projetos mais atentos às vocações econômicas dos insumos amazônicos. As lições, portanto, sabemos de cor…Só nos resta fazer.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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