Correlações e causalidades do baixo desenvolvimento humano

“Talvez por isso o nosso baixo desenvolvimento humano tem estado fora de todas as análises e debates. É como se desenvolver as pessoas não fosse mais um interesse. É como se todos nós só quiséssemos melhorar o país para investidores, como se fôssemos milhões de “investidores” em bolsa de valores.”

Parece-me importante voltarmos a olhar o mundo com mais diversidade de percepções, para que não nos voltemos apenas para os ricos e os muito ricos, com seus interesses. Não é coincidência que as pessoas comecem a se interessar ou entender cada vez menos as questões de economia e de política. A relação de causa, de culpa, de solução e do debate público está centrada na pauta de interesse dos 2,8% e não nos 97,2%.

A análise de dados é algo muito refinado. Encontrar as vinculações entre causas e efeitos é relativamente complexo, mas quando se acha pode ser muito útil para correções de atuações. O problema é que a diferença entre um remédio e um veneno pode ser simplesmente um erro de avaliação. Atualmente, muitas opiniões de “especialistas” são tratadas com peso igual ao de especialistas. Isso sempre aconteceu, mas quando você tem os tais “especialistas” prescrevendo soluções com propósito diverso do que ele fala é que surgem problemas.

Uma correlação indica uma mudança de variável associada com a mudança de outra. Entretanto, essa associação não implica necessariamente que exista causalidade entre elas. Como exemplo, o Brasil é quente e no país existe pobreza. Então, há quem diga que somos pobres porque aqui é quente. As variáveis estão associadas, mas não há causalidade entre elas.

copia de DALL·E 2025 02 24 22.23.44 A conceptual illustration depicting the dangers of misinterpreting data correlations. The image features a large scale with one side showing a pile o

Por outro lado, no caso da causalidade, as mudanças estão diretamente associadas. Como exemplo, onde há infraestrutura abundante no país, existe atividade econômica. Há uma forte causalidade entre a atividade econômica e o que alguns economistas chamam de “fatores” que levam a produção. É possível perceber que onde há menos infraestrutura, temos menos atividades econômicas. Há causalidade e correlação na questão de infraestrutura em relação ao desenvolvimento econômico e onde há desenvolvimento humano no país

O simples fato de haver correlação entre variáveis não leva a uma relação de causalidade. Também vale a pena observar que tipo de causalidade interessa à maior parte da sociedade ou menor parte dela. Por exemplo, o Brasil tinha em dezembro 6,2% de desemprego, mas apenas em dezembro a remuneração média de R$ 3.315 ultrapassou o máximo histórico de R$ 3.290, de setembro de 2020. Não precisa muita conta para entender o quanto de poder de compra do salário se perdeu neste período. Há mais emprego, mas ainda não existe aumento de salários compatível, pois o crescimento de 2024 inteiro foi de apenas 4,25%.

As correlações de variáveis tipicamente são usadas para defender ideias e sugestões de mudança de conduta. Temos que ter cuidado para engolir as relações de causalidade, olhando com atenção o autor e seu interesse. Na próxima vez que você encontrar um analista da “Faria Lima”, do “mercado”, da “indústria”, do “comércio”, da “universidade”, tenha cuidado para aceitar as causalidades e correlações. 

DALL·E 2025 02 24 22.40.00 A conceptual illustration depicting the imbalance in economic representation. The image shows a giant scale where on one side a small group of invest

Talvez por isso o nosso baixo desenvolvimento humano tem estado fora de todas as análises e debates. É como se desenvolver as pessoas não fosse mais um interesse. É como se todos nós só quiséssemos melhorar o país para investidores, como se fôssemos milhões de “investidores” em bolsa de valores. Em dezembro passado tínhamos apenas 6 milhões de contas ativas em bolsa, ou cerca de 2,8% da população. Por outro lado, temos mais de 21 milhões de empresas. Por que falamos tanto na bolsa e tão pouco de empresas ou de pessoas?

Parece-me importante voltarmos a olhar o mundo com mais diversidade de percepções, para que não nos voltemos apenas para os ricos e os muito ricos, com seus interesses. Não é coincidência que as pessoas comecem a se interessar ou entender cada vez menos as questões de economia e de política. A relação de causa, de culpa, de solução e do debate público está centrada na pauta de interesse dos 2,8% e não nos 97,2%. Enquanto não houver um olhar para os efeitos que queremos, ficaremos nas pautas dos EUA, da Europa ou da China. Nunca na nossa. Por que será?

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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