Aumentar imposto não resolve tudo e pode gerar até efeito contrário

Uso de impostos é estimulado para resolver problemas que ultrapassam sua trivial competência arrecadatória; tributação elevada, porém, é convite para evasão fiscal

Por Everardo Maciel
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Nesse peculiar contexto, estimulou-se a utilização de impostos para resolver problemas que ultrapassam sua trivial competência arrecadatória. É o controverso domínio da extrafiscalidade.

Dois fatos recentes se inscrevem no debate da extrafiscalidade: o manifesto subscrito por respeitáveis autoridades médicas pedindo maior tributação dos alimentos ultraprocessados e a pretensão do governo brasileiro, no âmbito do G-20, de fazer prosperar uma proposta, cujo teor não se conhece, para taxação dos super-ricos no mundo.

Não raro surgem iniciativas de autoridades médicas buscando onerar severamente produtos que fazem mal à saúde. A preocupação quanto aos danos à saúde é legítima e pertinente. Resta saber se a tributação é eficaz na consecução desse objetivo.

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Alguns dirão: por que não enfrentar o descaminho e o contrabando que constituem a principal causa do mercado ilegal? Enfrentamento existe, porém a via convencional é impotente diante das incomensuráveis vantagens que aufere o mercado ilegal. Sonegação é uma perversidade social oportunista. Quanto maior o ganho do sonegador, maior sua propensão a sonegar.

Produtos que fazem mal à saúde devem ser enfrentados com educação e publicidade adversa. No limite, devem ser interditados ao consumo. Impostos mais altos ajudam, mas, se desproporcionais, correm o risco de gerar efeito oposto. É o que na medicina se denomina tratamento excessivo (overtreatment).

Leia também:

https://brasilamazoniaagora.com.br/2023/desinformacoes-tributarias/

A tributação universal dos super-ricos, como suscitado por Thomas Piketty, é um delírio. Essa gente tem domicílio fiscal em qualquer lugar, justamente por sua condição de afortunada. Preferencialmente, onde pagam pouco ou nenhum imposto.

Essa tese jamais vai prosperar em um mundo tão conflituoso. Seria mais sensato aguardar a resolução das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia e sua prevenção no leste asiático. Ao menos.

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Everardo Maciel é consultor tributário, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público e secretário da Receita Federal entre 1995 e 2002

*O artigo foi publicado no ESTADÃO

Everardo Maciel
Everardo Maciel
Everardo Maciel – CONSULTOR TRIBUTÁRIO, FOI SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL

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