Por enquanto, os riscos ambientais dos ataques no Irã ainda são localizados e podem ser controlados, mas ataques a locais como o reator nuclear de Bushehr poderiam trazer impactos graves
Na última semana, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra três importantes instalações nucleares do Irã: Fordow, Natanz e Isfahan — locais já anteriormente alvos de bombardeios por Israel no atual conflito entre os dois países. A resposta do Irã veio na segunda-feira (23), com o disparo de mísseis a uma base militar dos EUA no Catar.
Fordow, em especial, é uma instalação subterrânea de enriquecimento de urânio, escavada dentro de uma montanha, o que acendeu alertas ambientais.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou que, apesar dos bombardeios, não foi detectado aumento nos níveis de radiação nas áreas ao redor. Mesmo assim, a agência classificou os ataques como “profundamente preocupantes” e reconhece possíveis consequências relevantes à saúde e meio ambiente.

O objetivo dos Estados Unidos e de Israel, que também fez ataques ao Irã, é destruir os principais centros de enriquecimento de urânio do país, por acreditar que podem ser usados para produzir armas nucleares.
Riscos reais e impactos do urânio enriquecido
Segundo matéria do portal Um Só Planeta, os locais atacados pelos EUA são instalações de enriquecimento de urânio, onde se separa o urânio-235, essencial para reatores nucleares e armas atômicas, do urânio-238, encontrado na natureza. Esse processo utiliza centrífugas que giram o urânio em estado gasoso para fazer a separação por diferença de peso.
Especialistas afirmam que os bombardeios às instalações nucleares iranianas dificilmente provocariam um desastre ambiental comparável aos de Chernobyl ou Fukushima, desastres nucleares graves envolvendo usinas. Segundo o professor Jim Smith, da Universidade de Portsmouth, o urânio altamente enriquecido é apenas cerca de três vezes mais radioativo que o urânio comum, o que não é suficiente para causar contaminação ambiental grave.

Reatores civis usam urânio com 3% a 5% de enriquecimento, enquanto armas nucleares exigem cerca de 90%. Atualmente, o Irã já atingiu um nível de 60% de enriquecimento, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o que gera preocupação internacional.
No momento, Smith explica que os maiores perigos, nesse caso, vêm de produtos da fissão nuclear, como césio, estrôncio e iodo radioativos, que não estão presentes em locais de enriquecimento, já que nesses locais não ocorrem reações nucleares ativas. “Nesse caso, o que pode acontecer é uma dispersão localizada de partículas de urânio”, afirma.

Por enquanto, os riscos ambientais dos ataques no Irã ainda são localizados e podem ser controlados, mas ataques a locais como o reator nuclear de Bushehr, que permanece intacto até o momento, poderiam trazer impactos graves. Bushehr é considerado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) um alvo de alto risco e, segundo Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA, a usina está em operação e contém milhares de quilos de material nuclear.
Grossi alertou ao UOL que um ataque direto ao local poderia provocar a liberação de radioatividade em uma área de centenas de quilômetros, gerando uma verdadeira “catástrofe ambiental”. Elementos radioativos seriam liberados por meio de uma pluma de materiais voláteis ou no mar, contaminando ecossistemas e causando riscos à saúde da população.
