Amazônia: da teoria para a prática

O plano começa a apresentar elementos de redução das desigualdades, com uma estrutura contemplando 276 projetos na Amazônia, dentre os quais, serão 45 no Amazonas, incluindo a recuperação da BR-319, BR-307, ZF-7, AM-010, Mobilidade Urbana em Manaus, Entreposto Pesqueiro, Aeródromos e diversos projetos que realmente possuem o potencial de transformação. Será que começaremos a sair da teoria para a prática?

Por Augusto Cesar Barreto Rocha
__________________

Na teoria, a Amazônia precisa ser preservada e seus recursos aproveitados. Na prática, ela tem sido vagarosamente destruída no seu maior potencial e pouco preservada, por conta de um descaso e por alguns lapsos de percepção sobre como devemos usar seus recursos naturais. De vez em quando surge um projeto para uso mais inteligente, como em 2019, no programa Investe Turismo, o qual previa projetos turísticos para Manaus, Novo Airão e Presidente Figueiredo. Será que alguém percebeu resultados expressivos desta política pública nestes lugares?

Na teoria, o Plano Regional de Desenvolvimento da Amazônia (PRDA): 2020-2023, editado pelo Governo Federal em 2020, tinha como objetivo principal “reduzir as desigualdades regionais”, por mais que não houvesse ações que quebrassem a assimetria ou alocassem mais recursos na Amazônia do que em outras regiões. Da mesma forma que no outro plano, o resultado parece o mesmo: pouca ou nenhuma percepção de transformação.

Amazonialatitude92 e1594643484760
Desigualdades regionais – Amazônia Latitude

Surge agora uma nova versão do PRDA, para o período 2024-2027. Finalmente, o plano começa a apresentar elementos de redução das desigualdades, com uma estrutura contemplando 276 projetos na Amazônia, dentre os quais, serão 45 no Amazonas, incluindo a recuperação da BR-319, BR-307, ZF-7, AM-010, Mobilidade Urbana em Manaus, Entreposto Pesqueiro, Aeródromos e diversos projetos que realmente possuem o potencial de transformação. Será que começaremos a sair da teoria para a prática?

O total de projetos passa de R$ 4,398 bilhões. Assim, finalmente surge um Plano de ações mínimas para a Amazônia e para o Amazonas. São valores substanciais para quem não tinha nada ou quase nada e quando mais de R$ 1 bilhão foi desembolsado por empresas para enfrentar a seca e a falta de trânsito de navios. O valor parece menor quando colocados num panorama secular e a falta de infraestrutura, mas, mesmo com todas estas ressalvas, é fantástico voltarmos para o mapa de investimentos nacionais, pois faz muito tempo que nada de substancial ou sistêmico tem sido feito por aqui (alguma vez foi?!). 

navio izmir da msc atraca no super terminais em manaus durante a seca historica de 2023 foto super terminais.jpeg
Navio Izmir da MSC atraca no Super Terminais em Manaus durante a seca histórica de 2023 — Foto: Super Terminais

Este plano tem o potencial de ser um divisor entre o descaso e a integração da Amazônia ao Brasil. Se os projetos forem integralmente executados, poderemos ter uma transformação profunda na região. O desafio está posto para toda a sociedade, primeiro em aprovar nas Casas Legislativas, pois se trata de uma mensagem enviada ao Congresso Nacional. A primeira etapa desta batalha será assegurar tantos recursos para todos os projetos e, quem sabe, integrar outros mais. 

Fazer a transição da teoria com a prática é o que mais ansiamos no Amazonas, pois, no estágio atual, o Brasil ainda não desbravou ou ocupou a região com a atenção voltada ao seu potencial. A lacuna que existe no projeto, apesar de ações junto ao INPA, é que não foi possível constatar um enfoque mais amplo para o desenvolvimento científico. Assim, a maior oportunidade de alterações, para melhorar, provavelmente será nesta temática, pois com recursos relativamente pequenos, frente ao todo, poderão ser transformadores do cenário e induzir o que mais interessa, que é usar a biodiversidade, por exemplo, transformando ao menos uma parcela das 1.450 plantas medicinais que temos em bioativos e, consequentemente, em mais saúde para o mundo

12 270x300 1 1

Augusto Rocha é Professor Associado da UFAM, com docência na graduação, Mestrado e Doutorado e é Diretor Adjunto do CIEAM

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

Artigos Relacionados

BR-319: reconstruir não é tudo 

"A reconstrução da BR-319 não será simples. Há um...

Barcelona e o dever da resistência

"Um chamado à responsabilidade política em um tempo em...

O mapa do resgate – Quem terá coragem de deter Trump?

"Trump não será contido apenas porque é excessivo. Líderes...

Dom Pedro II: a escola que ensina o passado e cobra o futuro

Com mais de 150 anos, colégio histórico Dom Pedro...