O Amazonas na improvável ciranda das sete magníficas

Pela natureza do nosso modelo, vivenciamos a saúde econômica do Amazonas na sequência Mundo-Brasil-Amazonas. Se tudo correr bem, o mundo compra as commodities do Brasil, cuja entrada de divisas eleva a renda da população, que por sua vez forma a demanda dos bens duráveis tipicamente produzidos no PIM. 

Precisamos potencializar as vantagens e mitigar as desvantagens desse posicionamento, ao mesmo tempo otimizando o nosso ambiente de negócios de modo que consigamos capturar plenamente a demandada população brasileira por bens duráveis (dica: É bem maior que os atuais cerca de R$ 220 de bilhões anuais de faturamento do PIM) e ajustando as nossas decisões de produção e investimento à realidade do mundo e do Brasil, tirando lições do passado e antecipar o futuro pelos fundamentos do presente.

Os últimos piores momentos foram as crises de 2008 e 2015. A primeira, pelo estouro de uma bolha que se formava na corrida por imóveis nos EUA. A segunda foi unicamente brasileira, consequência da complacência com a inflação e com a irresponsabilidade fiscal. Obviamente no Amazonas fomos atingidos pelas duas, mais pela segunda que pela primeira. Como seremos atingidos quando vier a próxima? (dica: Haverá uma próxima).

Amazonas na improvável
Foto: Capriata Cursos

Estamos na exuberância da Inteligência Artificial, muito bem percebida pelo desempenho das ações das empresas provedores de serviços e estruturas dessa nova Tecnologia de Propósitos Gerais (TPG). São as 7 Magníficas. Juntas, valiam cerca de US$ 6 trilhões em junho de 2020. Registraram o pico de US$ 22 trilhões em fins de outubro, e agora valem cerca de US$ 20 trilhões.

Bem no pico de outubro o time de analistas do banco Goldman Sachs publicou relatório discutindo os fundamentos do que se atribui de valor à Inteligência Artificial e seus principais atores, abordando a questão sobre se há bolha. A resposta é “ainda não”. Pois há uma combinação entre méritos tecnológicos e financeiros. À diferença das bolhas anteriores, as empresas de destaque geram fluxo de caixa operacional e remuneram os acionistas com consistência.

Um dos sinais de bolha, ainda que em probabilidade ínfima, é o caráter circular de alguns fluxos financeiros entre as Magníficas. Fazem algo que lembra uma ciranda, ou a quadrilha dos versos de Drummond. Microsoft fomenta a OpenIA que fomenta a Azzure, que é da Microsoft. Google fomenta a Anthropic que fomenta Google Cloud, que é da Google.

Amazon fomenta Anthropic que fomenta AWS, que é da Amazon. Todos usam GPUs da Nvidia, que aumenta as margens, faz as ações dispararem e atraem investimentos para todo o ecossistema de Inteligência Artificial, que por sua vez se vê numa corrida para consumo de energia elétrica e construção de equipamentos, queima de caixa orçada em US$ 700 bilhões somente para 2026.

Nessa ciranda, o Brasil – e o Amazonas -, estamos pior que um J. Pinto Fernandes. Não nos fazemos convidados para as boas fontes de valor da Inteligência Artificial. Seja na parte intangível seja nas cadeias de suprimentos físicos. E, prevalecendo a hipótese de bolha, não teremos os recursos da economia nacional que amorteceram os efeitos de estouro de bolha como na penúltima crise, a de 2008. E a relação dívida-PIB está pior que na crise de 2015. Em resposta, o melhor que podemos fazer agora é buscar inverter a sequência, criando uma cadeia de valor Amazonas-Brasil-Mundo. 

André Ricardo Costa
André Ricardo Costa
Doutor pela FEA USP e professor da UFAM

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