O Amazonas como solução para si mesmo, para o Brasil e para o mundo

Entender a importância da Zona Franca de Manaus não deveria ser difícil para nós amazonenses. Um parágrafo deveria bastar, com três perguntas que remetem à lógicacontrafactual. Não fosse a Zona Franca de Manaus, no Amazonas teríamos quantos empregos? Qual seria a arrecadação tributária? Como estaria o bioma amazônico?Superadas essas perguntas, dedicamo-nos a novas conquistas para o Amazonas. Dentro e fora do contexto Zona Franca de Manaus.

Antes, reconheça-se que a economia amazonense é marcada por um viés passivo, vive reagindo aos movimentos do Brasil e do mundo. Isso reforça a necessidade de usufruir ao máximo do vetor de desenvolvimento Mundo-Brasil-Amazonas e, ao mesmo tempo, cultivar iniciativas Amazonas-Brasil-Mundo. Detalho agora como isso poderia ocorrer.

O Polo Industrial de Manaus deve encerrar o ano com faturamento próximo a R$ 220 bilhões, e 140 mil empregos diretos. Sim, poderia ser mais. O limite está na capacidade de consumo da população brasileira. No total, é de R$ 8,8 trilhões. Subtraindo os gastos correntes com cesta básica e serviços como água, energia elétrica, telefonia, saúde e educação, obtém-se o número de R$ 1,3 trilhão como valor total disponível para adquirir bens duráveis.

Amazonas como solução
Foto: Alberto amazonia.com.br/César Araújo/Amazônia Real).

Por óbvio este não é o número exato do quanto o PIM poderia estar faturando. Na demanda, as famílias brasileiras adquirem bens duráveis que não são da pauta do Polo Industrial de Manaus, como imóveis e automóveis. Na nossa oferta, há itens que não são direcionados ao consumidor final, como as balsas e embalagens para o agronegócio, ou não são bens duráveis, como alimentos e bebidas. Mas penso que esse R$ 1,3 trilhão ajuda a evidenciar o quanto o PIM ainda pode conquistar.

Uma parte dessa conquista já está encomendada, pelo número de empresas que despertaram para produzir no Polo Industrial de Manaus após o sucesso na Reforma Tributária ter resolvido a insegurança jurídica da Zona Franca. O restante da conquista depende da otimização do nosso ambiente de negócios.

Vamos preencher grande parte dessa lacuna, com o PIM multiplicando seu faturamento e empregabilidade, quando o rio Amazonas for verdadeira hidrovia, a BR-319 for solucionada, as tarifas dos prestadores de serviços forem precificadas conforme a eficiência da oferta e não apenas na inelasticidade da demanda. 

Quando os fluxos logísticos, a concessão de incentivos e os Processos Produtivos Básicos forem otimizados. Sobretudo, quando formos mais ambiciosos, cooperativos e disciplinados na apropriação de competências e sinergias nas cadeias produtivas. Também, obviamente, quando os governantes dos três entes forem zelosos na alocação do orçamento e patrimônio.

R$ 1,3 não é limite irreal. É um limite a transpor. Nessa abordagem é que avançamos para o ambiente externo à Zona Franca de Manaus. O universo da prosperidade sustentável disponível no bioma amazônico. Um começo é corrigir nossa realidade fundiária, botando CPF em cada metro quadrado. Depois, mapear as terras pretas para plena disponibilização a sistemas agroflorestais, e demarcar as águas internas para aquicultura, dando início à produção intensiva de peixes. Hoje feita em tanques, concorre com a cobertura florestal. 

Tudo isso em máximo usufruto da biotecnologia, teríamos tal produção de alimentos que reduziria o custo da cesta básica brasileira, ajudando a conter inflação e juros. Depois, alimentaria o mundo. Demonstra-se, assim, a sequência de desenvolvimento Amazonas-Brasil-Mundo.

André Ricardo Costa
André Ricardo Costa
Doutor pela FEA USP e professor da UFAM

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