Estudo internacional com participação da USP aponta que a alteração genética pode frear o avanço da malária, doença que ainda causa quase 600 mil mortes por ano.
Pesquisadores desenvolveram uma estratégia genética que pode bloquear o ciclo de transmissão da malária em mosquitos do gênero Anopheles. O estudo, publicado na revista Nature, contou com a participação do professor Rodrigo Malavazi Corder, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, e foi liderado por cientistas da University of California, San Diego e da Johns Hopkins University.
O estudo teve como alvo o gene FREP1, responsável por codificar uma proteína que permite ao Plasmodium falciparum — parasita causador da forma mais grave da malária — atravessar a parede intestinal do mosquito. Em algumas populações do inseto já existe uma variante natural desse gene, chamada FREP1Q, que dificulta essa passagem. Os cientistas introduziram essa versão no Anopheles stephensi, espécie transmissora comum na Ásia e em expansão no continente africano.
Nos testes, mosquitos modificados apresentaram taxas de infecção muito menores e, quando infectados, carregavam quantidades reduzidas do parasita, sem prejuízos à reprodução ou à longevidade. Para espalhar a característica, foi usada a técnica de gene drive, que aumenta a chance de herança de um gene. Com isso, a presença da variante saltou de 25% para mais de 90% em apenas dez gerações.
A equipe da USP colaborou com modelos matemáticos que descrevem a disseminação da alteração genética. Ainda não se sabe se a mesma abordagem funcionaria no Anopheles darlingi, predominante na Amazônia e principal vetor da malária no Brasil. Mas grupos de pesquisa já iniciam discussões para testes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2023 foram registrados mais de 260 milhões de casos e quase 600 mil mortes por malária no mundo. Apesar de métodos tradicionais de combate, a doença continua sendo um desafio sanitário e novas abordagens podem romper a estagnação na luta contra a malária. Para os cientistas, técnicas genéticas como essa são promissoras porque reduzem a transmissão sem eliminar os mosquitos, representando uma alternativa menos agressiva ecologicamente.
