A Zona Franca de Manaus e o clamor por inovação

“Enquanto a indústria da ZFM não estiver intimamente ligada com a natureza da região, será difícil, se não impossível, concretizar a visão de uma Amazônia desenvolvida. Para alguns que preferem não olhar problemas, talvez para não ter que enfrentá-los, fica difícil admitir. O otimismo pode se tornar venenoso, se aplicado em doses excessivas, especialmente quando não há elementos para sustentá-lo.”

Augusto César Barreto Rocha
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Dan Breznitz publicou dias atrás o livro “Inovação em lugares reais”, pela Universidade de Oxford. Ele categorizou quatro tipos de ecossistemas de inovações tecnológicas, apesar de um desejo frequente das cidades terem um “Vale do Silício” para chamar de seu. Sua visão é que a decisão do melhor método advenha da comunidade da região. Dentre os quatro métodos apresentados, a ZFM parece ter algo semelhante ao que a China faz em algumas áreas industriais: produção e montagem, com inovação nesta especialidade. Breznitz cita, neste exemplo, a taiwanesa Foxconn, que emprega 250 mil pessoas em sua maior fábrica na China, produzindo para diferentes marcas, sendo competitiva globalmente.

A pequena escala relativa da produção de Manaus, quando comparada com cadeias globais de suprimento, chama a atenção quando é feito algum contraste dos números locais com outros lugares. O que está bom e o que seria algo que poderia crescer? Sempre que se menciona a indústria de Manaus há insistentes afirmativas de que “é grande” e “tem sucesso”. Não consigo concordar. Entendo que poderia ser muitas vezes maior. Então, sob esta ótica particular, é pequena e precisa crescer. Só que para isso as condições atuais precisam evoluir. Entretanto, se nos convencermos que está bom, como evoluir?

Como a dose é que faz o veneno, um otimismo irreal ao invés de estimular novos negócios, corrói a confiança e desestimula o crescimento. Como parte do problema está a falta de uma indústria que faça uso intensivo e responsável dos recursos naturais da região. Faltam diagnósticos que expliquem este fenômeno, com ações para combater esta situação particular. Este é um clamor da região que não é enfrentado com faróis do futuro, quando muito remete-se ao irresponsável passado predador. Enquanto entendermos que “está bom”, seguirá a situação em que vivemos. Ou seja, será difícil desenvolver a Amazônia.

O sucesso relativo da indústria da ZFM está associado aos setores eletroeletrônico e de duas rodas. Nos demais, haverá um ou outro que se destaquem, mas sempre carentes do que mais se gostaria: exportação e grande relevância global. Esta oportunidade precisa ser explorada. Enquanto a indústria da ZFM não estiver intimamente ligada com a natureza da região, será difícil, se não impossível, concretizar a visão de uma Amazônia desenvolvida. Para alguns que preferem não olhar problemas, talvez para não ter que enfrentá-los, fica difícil admitir. O otimismo pode se tornar venenoso, se aplicado em doses excessivas, especialmente quando não há elementos para sustentá-lo.

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Augusto Cesar Barreto Rocha é professor do UFAM
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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