A pauta da cidadania

Qual é o fundamento e a necessidade da ética num contexto em que o homem, decididamente, é compelido a ser lobo do próprio homem? Homo homini lupus traduz um bordão filosófico de Thomás Hobbes que, no Século XVII, embora monarquista, influenciou fortemente o pensamento liberal. Para ele, o homem não nasceu para viver em sociedade e sua conduta é motivada pelo egoísmo e autopreservação. Passados 4 séculos, o que se vê é a espiral da violência em todos os níveis e grupamentos sociais, levando-nos a supor que Hobbes seria um profeta e que a criminalidade generalizada virou uma mercadoria rentável e cobiçada. O Brasil que dá certo não tem audiência, o da violência tem, aguça a curiosidade e enseja rentabilidade.

Na contramão desse mau agouro, a iniciativa do pastor Stanley Braga de mobilizar o Comitê Cidadão simboliza refutar essa anomalia institucionalizada e desfraldar a bandeira da cidadania e dos valores fundamentais do homem, da mulher e da família. Sob a orientação filosófica e teológica de dois líderes religiosos, Dom Sérgio Castriani e Pastor José João, e do ativista dos Direitos Civis, o procurador-chefe do Ministério Público Federal do Amazonas, Edmilson Barreiros, e líderes de várias entidades de classe, cidadãos e cidadãs com papéis destacados no tecido social, o Comitê planta no escuro as sementes da dignidade humana inspirado na Parábola evangélica da colheita imprevisível. O ecumenismo dos personagens, seu envolvimento com a Lei – a dos homens e a de Deus – as convicções sobre o império do Be m-Comum e a luta pelos direitos do cidadão, são objetivos permanentes do Comitê, que buscam ampliar o time de semeadores, clarear e priorizar os mandamentos da paz.

A violência da mobilidade urbana improvisada, a defesa da economia da Zona Franca de Manaus, a punição do estelionato eleitoral, o combate à corrupção, entre outras mazelas e omissões, ilustram os princípios filosóficos e teológicos que embasam a dignidade humana, aqui e agora. Se o homem ensaia ser o lobo do homem, suas origens divinas lhe conferiu a semente da comunhão para que ele descubra que o homem, verdadeiramente, alcança sua humanidade quando se dá conta que se origina da mesma Energia – que os religiosos tratam como Deus – estão todos interligados, portanto, somos todos irmãos.

Desemprego, exclusão social, violência em todas as direções, ausência de políticas públicas, desvios de finalidades das verbas públicas, em suma, tudo que afaste a pessoa de seus direitos civis é pauta e compromisso do Comitê Cidadão, cujas bandeiras, desafios e conquistas são conversas diárias, na Rádio Boas Novas, e Redes Sociais, do Programa Interligados, que Stanley Braga e sua equipe apresentam diariamente.

A próxima pauta do Comitê será uma convocação geral contra a violência sexual imposta às crianças e adolescentes do interior do Amazonas, muitas vezes por membros da própria família. “Tudo o que fizerdes a um desses é a Mim que fareis!”

Na doutrina Presbiteriana, o homem se realiza na obediência a Deus através do trabalho. No desemprego, o homem é privado de sua própria humanidade, é um flagelo social, um verdadeiro crime de violência. “Ganharás o teu pão com o suor do próprio rosto”, diz o Gênesis. O trabalho vence tudo, o Omnia vincit labor, o lema latino de Virgílio, adotado pelos padres salesianos de Dom Bosco, vai na mesma direção ética da dignidade das pessoas. Ética, Ethos, em grego descreve a morada humana, algo que se constrói. Ético, pois, significa partilhar oportunidades, repartir riquezas, incluir os barrados do baile da desigualdade, ou seja, tudo àquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente em que vivemos, nossa casa comum, fraterna, emocionalmente acolhedora, ambientalmente sustentável e espiritualmente interligada.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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