As eleições de 2026 e o futuro da indústria amazônica

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A aproximação do calendário eleitoral costuma deslocar o debate público para pesquisas de intenção de voto, alianças partidárias e estratégias de campanha. São componentes naturais da democracia. Mas, enquanto a política se organiza em torno das disputas eleitorais, o setor produtivo precisa olhar um pouco mais adiante. As eleições também são momentos privilegiados para discutir projetos de desenvolvimento.

No Amazonas, essa reflexão passa inevitavelmente pelo Polo Industrial de Manaus. Não apenas porque concentra milhares de empregos diretos e indiretos, mas porque representa uma política pública cuja importância ultrapassa os limites do Estado. Trata-se de um dos principais instrumentos brasileiros de integração territorial, redução das desigualdades regionais e preservação da floresta por meio da atividade econômica formal. Quem pretende ocupar cargos no Executivo ou no Legislativo deveria conhecer profundamente a ZFM.

Ainda é comum encontrar interpretações superficiais sobre a Zona Franca de Manaus, reduzida, muitas vezes, a uma política de incentivos fiscais. Essa visão ignora mais de cinco décadas de resultados concretos. Os incentivos constituem um mecanismo para compensar desvantagens estruturais impostas pela distância dos grandes mercados consumidores, pelos elevados custos logísticos e pelas limitações naturais de uma região que, ao mesmo tempo, abriga a maior floresta tropical do planeta.

O que se produz em Manaus vai muito além de bens industriais

Produzem-se empregos qualificados, arrecadação tributária, desenvolvimento tecnológico, formação profissional, oportunidades para milhares de famílias e uma alternativa econômica que reduz pressões sobre a floresta. Conhecer essa realidade, seus problemas, suas vantagens e benefícios significa cuidar de sua manutenção, fortalecimento e distribuição maior de seus recursos. Esse patrimônio institucional exige conhecimento.

Não se trata apenas de defender direitos assegurados pela Constituição. É igualmente necessário compreender os deveres que acompanham esse modelo. A indústria instalada no Polo Industrial de Manaus sabe que sua legitimidade depende da capacidade permanente de inovar, aumentar a competitividade, ampliar investimentos, fortalecer cadeias produtivas, incorporar tecnologias, acelerar a transição energética e expandir sua integração com a bioeconomia, a pesquisa científica e o desenvolvimento do interior do Estado. 

Temos que escolher pessoas qualificadas

É justamente nesse ponto que o processo eleitoral ganha importância. Os futuros governantes e parlamentares serão chamados a deliberar sobre infraestrutura logística, segurança jurídica, reforma tributária, política industrial, comércio exterior, inovação tecnológica, educação profissional, energia, conectividade e sustentabilidade. Todas essas decisões afetam diretamente a capacidade competitiva da indústria amazônica. Seria desejável que os candidatos tivessem experiência e preparação.

As entidades empresariais, universidades, centros de pesquisa, trabalhadores, instituições públicas e a própria imprensa possuem condições de construir uma agenda permanente de diálogo com todos os candidatos, independentemente de suas posições ideológicas. O objetivo não é produzir alinhamentos eleitorais, mas ampliar o conhecimento sobre um dos mais relevantes instrumentos de desenvolvimento regional concebidos pelo Estado brasileiro.

Democracia é governo do povo em benefício do povo 

Uma democracia madura também se fortalece quando seus representantes chegam ao exercício do mandato conhecendo os temas sobre os quais irão legislar ou decidir.

A Amazônia já pagou um preço elevado por avaliações simplificadas sobre sua economia. Frequentemente, decisões tomadas a milhares de quilômetros da região desconsideraram suas especificidades geográficas, sociais e produtivas. O resultado quase sempre foi insegurança para investidores, dificuldades para trabalhadores e obstáculos ao desenvolvimento regional. Esse ciclo pode ser rompido com representantes diferenciados.

As eleições de 2026 oferecem uma oportunidade para aprofundar o diálogo entre a política e a economia real. Mais do que ouvir promessas, é tempo de apresentar dados, compartilhar experiências e demonstrar como o Polo Industrial de Manaus contribui para um Brasil mais equilibrado. Poucos instrumentos de política pública conseguem reunir, de forma tão consistente, geração de riqueza, arrecadação, inovação, inclusão social e conservação ambiental.

Transparência, compromisso e experiência 

Ao mesmo tempo, é importante que a própria indústria continue ampliando sua capacidade de demonstrar resultados, prestar contas à sociedade e participar do debate nacional com transparência e visão estratégica. Quanto maior for a compreensão pública sobre os benefícios produzidos pelo modelo, maior será sua capacidade de atravessar mudanças de governo preservando sua estabilidade institucional. O futuro da indústria amazônica não será definido apenas pelas urnas.

Ele dependerá da qualidade do diálogo que conseguirmos construir durante o processo eleitoral. Formar lideranças capazes de compreender a singularidade do Polo Industrial de Manaus talvez seja uma das contribuições mais relevantes que esta geração pode oferecer ao Amazonas e ao Brasil. Afinal, proteger esse patrimônio significa preservar empregos, distribuir riqueza de forma mais equilibrada, fortalecer a soberania nacional sobre a Amazônia e demonstrar que desenvolvimento e conservação podem caminhar na mesma direção.


Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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