Apreensões de ouro ilegal avançam 830% com novas rotas pela Amazônia

Fiscalização interceptou 51,75 quilos de ouro ilegal no primeiro semestre, com avanço das operações em áreas estratégicas da região Norte. 

As apreensões de ouro ilegal nas rodovias federais brasileiras aumentaram de forma expressiva no primeiro semestre de 2026. Entre janeiro e junho, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) interceptou 51,75 quilos do metal, volume 830,76% superior ao registrado no mesmo período de 2025, quando o total não chegou a seis quilos.

A maior parte das ocorrências foi registrada na região Norte. O Pará liderou as apreensões, com 26,52 quilos, seguido por Roraima, com 15,64 quilos. Os números indicam uma mudança nas rotas usadas para transportar ouro ilegal, agora concentradas em áreas próximas às fronteiras internacionais.

Segundo Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas, o deslocamento ocorreu após alterações nas regras de comercialização do ouro. Durante anos, a legislação permitiu que instituições autorizadas comprassem o mineral com base na declaração de boa-fé do vendedor, sem mecanismos suficientes para comprovar sua origem.

Esse modelo começou a mudar em 2023. Em março daquele ano, a Receita Federal tornou obrigatória a emissão de nota fiscal eletrônica nas operações envolvendo ouro de garimpo. No mês seguinte, o Supremo Tribunal Federal suspendeu trechos da Lei nº 12.844/2013 que estabeleciam a presunção de legalidade do mineral e a boa-fé do comprador.

As novas exigências dificultaram a inserção do metal extraído clandestinamente no mercado formal. Antes, a produção irregular podia ser misturada ao ouro regular e exportada pelos principais aeroportos brasileiros. Com o endurecimento dos controles, organizações criminosas passaram a buscar rotas terrestres e transfronteiriças, especialmente por Roraima e pela Venezuela.

Os dados sobre a produção oficial reforçam essa transformação. Em 2025, os garimpos declararam aproximadamente 5,8 toneladas de ouro, queda de 81% em comparação com 2022, conforme informações da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais analisadas pelo Instituto Escolhas.

Parte dessa redução pode estar associada ao recuo da atividade diante das operações de fiscalização. Outra parcela, porém, pode ter permanecido em funcionamento fora dos registros oficiais, abastecendo redes de contrabando de ouro ilegal para outros países. Entre 2020 e 2023, foram apreendidos aproximadamente 253 quilos de ouro em todo o Brasil. Já em 2024 e 2025, o volume acumulado chegou a 261,76 quilos, superando em dois anos o total interceptado nos quatro anos anteriores.

Roraima vira corredor estratégico

A posição geográfica de Roraima transformou o estado em um ponto importante para o escoamento clandestino de riquezas retiradas dos garimpos. De acordo com Marcelo Aguiar, superintendente da PRF no estado, as forças de segurança acompanham a migração das rotas usadas pelo crime organizado em direção às fronteiras.

O estado também registrou, no primeiro semestre, um recorde na apreensão de mercúrio. Mais de uma tonelada do metal foi interceptada até junho. Utilizado para separar as partículas de ouro durante a mineração, o mercúrio oferece riscos elevados à saúde humana e ao meio ambiente, contaminando rios, animais e populações expostas.

A valorização internacional do ouro também aumenta a pressão sobre áreas de mineração. Após atingir níveis históricos, acima de US$ 5,4 mil por onça-troy, o preço do metal recuou cerca de 26% nos meses seguintes. Mesmo assim, o valor acumulado e as incertezas no mercado internacional mantêm o produto atrativo para atividades legais e clandestinas.

Especialistas defendem que o combate ao ouro ilegal precisa avançar com a criação de um sistema nacional capaz de rastrear o metal desde a área de extração até sua venda ou exportação. Sem esse controle, o aumento das apreensões revela a intensificação da fiscalização, mas também indica que grandes volumes ainda circulam por redes criminosas dentro e fora do país.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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