Com a chuva gerada pela Amazônia avaliada em mais de R$ 100 bilhões anuais, os incêndios ameaçam um patrimônio essencial ao agronegócio, à segurança hídrica e ao abastecimento da população e da indústria.
Coluna Follow-Up
A fumaça que encobre Manaus expõe uma destruição cujas consequências ultrapassam a área queimada. Além do sofrimento de quem respira o ar contaminado, os incêndios comprometem uma floresta que participa da formação das chuvas e sustenta condições necessárias à produção de alimentos, à geração de energia e ao abastecimento. O prejuízo alcança atividades econômicas muito distantes de onde o fogo começou.
Uma pesquisa publicada na revista Communications Earth & Environment estimou em US$ 19,6 bilhões anuais, com margem de incerteza de US$ 7 bilhões, o valor do serviço de geração de chuva das florestas da Amazônia Legal brasileira. A cifra central corresponde à ordem de R$ 100 bilhões divulgada pela imprensa. Os autores estimam também que o desmatamento acumulado já tenha reduzido esse serviço em US$ 4,8 bilhões por ano. São valores ambientais estimados, distintos de uma contabilização dos danos dos incêndios atuais.
Para o agronegócio, a degradação da floresta representa risco à própria base da produção. A redução das chuvas e o atraso da estação chuvosa podem comprometer o calendário de plantio e a produtividade. O estudo relaciona a perda florestal à diminuição da chuva e aponta implicações para o acesso à água, a navegação e a geração hidrelétrica. Preservar essa contribuição interessa diretamente a quem produz e depende de alguma previsibilidade climática.
Na Amazônia, essa dependência atravessa também os rios. A repetição de estiagens extremas ameaça o abastecimento das comunidades e o funcionamento da indústria, pela dificuldade de transportar alimentos, combustíveis, insumos e produtos. Rios com navegação restrita significam viagens mais difíceis, operações adicionais e pressão sobre os custos. Quando a degradação florestal enfraquece o regime de chuvas, acrescenta vulnerabilidade a uma economia que já enfrenta grandes distâncias e poucas alternativas logísticas.
Os incêndios ocorrem, entretanto, num momento de avanço na contenção da derrubada. Segundo o MapBiomas, a Amazônia registrou 693 mil hectares desmatados em 2025, o menor valor da série de 1985 a 2025. Esse resultado merece reconhecimento e continuidade. A redução do desmatamento precisa ser acompanhada pela contenção do fogo e da degradação, que também comprometem a integridade da floresta.
A proteção enfrenta pressões territoriais atravessadas pela polarização política. Em reportagem de 12 de outubro, a Folha de S.Paulo reuniu áudios com ameaças de invasão da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, condicionadas à vitória de quem defende a ocupação a qualquer custo. Segundo o jornal, os autores esperavam que o resultado eleitoral favorecesse a ocupação. Órgãos federais informaram acompanhar as ameaças e reforçar a segurança. O episódio documenta como expectativas políticas podem alimentar pressões sobre áreas protegidas.
No Amazonas, a Polícia Civil instaurou 120 procedimentos criminais relacionados aos incêndios. O Ministério do Meio Ambiente registrou relatos de ignições deliberadas, enquanto a hipótese de ação organizada permanece sob investigação. Identificar autores, eventuais financiadores e interesses envolvidos exige apuração e divulgação dos resultados, inclusive depois que a fumaça desaparecer do noticiário.
O tempo disponível para prevenir novos danos está sob pressão. O quarto boletim do Painel El Niño 2026–2027 aponta 95% de probabilidade de intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com condições mais secas e maior risco de fogo no centro-norte brasileiro. São tendências sazonais, cujos efeitos variam regionalmente, mas suficientes para orientar preparação e reforço das operações.
A dimensão econômica da chuva deveria aproximar governos, produtores, indústria e comunidades em torno de uma agenda concreta de prevenção, fiscalização e remuneração de quem conserva. Incendiar deliberadamente a floresta expõe a sociedade a perdas que se prolongam para além da emergência. A conta chega à saúde pública, à lavoura, ao transporte e à produção industrial, enquanto a recuperação do patrimônio destruído exige muito mais tempo do que sua proteção teria exigido.
A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br