ZFM: para onde?

Açoitados pelo medo e apegados na afirmação da esperança, vivemos a contradição de um dilema que é – a um tempo – político, socioeconômico e existencial na medida do poder meditação de cada um. Buscamos vislumbrar um caminho em meio à insegurança jurídica e a penúrias econômica que castiga o modelo ZFM, penalizando, principalmente, aos despossuídos, os barrados no baile da acumulação e, miseravelmente, da contravenção que se banaliza e naturaliza num cotidiano sem utopia nem ‘teogonia para se encostar”, para ilustrar o cenário com “ E agora, José?” de Carlos Drumond.

Um modelo dependente do capital industrial que, em todos os recantos fabris do planeta, encolhe a cada dia na virtualidade digital do novo milênio. Acompanhem a China e rezemos pelos chineses, pelo tamanho do modelo e o estrago de um eventual tombo estrutural. O modelo fabril, no caso da ZFM, agoniza também pela inépcia federal e pela escassez de tecnologia, que agregaria inovação, diversificação e valor ao processo industrial e sua interiorização e inclusão das vocações adicionais, sobretudo biotecnológicas. O modelo também se amofina pela frágil competitividade, refém do incentivo capenga, que se baseia na renúncia e se radicaliza num vampiresco confisco. Em outras palavras, são tão gritantes as razões do medo que outra atitude nos resta senão empurrarmo-nos a todos a partilhar energias, criatividade e talento a fim de robustecer a esperança, no sentido do verbo esperançar – jamais de ficar esperando na posição de aguardar passivamente a mudança acontecer. Esperançar é construir a hora, antecipar a utopia, fazer da adversidade a dialética da transformação.

O modelo ZFM foi colocado de cabeça para baixo, na inversão de seu conceito e na inversao de seus propósitos. A triangulação inteligente entre comércio, indústria e agricultura foi desenhada para evitar a concentração industrial, promover as vocações naturais do patrimônio genético e inserir no mercado produtos e receitas capazes de ocupar racionalmente o vazio amazônico e integrar suas vocações continentais na dinâmica econômica nacional e global. Em vez disso, o modelo foi empurrado para a produção industrial sem reinvestir nos demais setores os dividendos das riquezas produzidas. Resultado: com o advento da crise e com o perfil da produção industrial que não deu prioridade aos bens de primeira necessidade, a ZFM precisa se reinventar, urgentemente, para subsistir, na busca de novas modulações econômicas que utilizem o modelo atual como ponto de partida de ampliação e regionalização fabril.

Um acontecimento extraordinário, nesse contexto de fabricação da esperança, se deu com o lançamento da obra “Pan-Amazônia: visão histórica, perspectivas de integração e crescimento”, dos Organizadores: Osiris M. Araujo da Silva e Alfredo Kingo Oyama Homma. Trata-se de uma obra interdisciplinar, densa, reflexiva e proativa, com perspectiva da Amazônia Continental, portanto, integrada e integralizadora, convidando os governos e demais atores do Continente, mesmo aqueles que não compartilham o bioma florestal, a debruçar-se sobre sua importância estratégica, climática, de ciência, tecnologia e inovação para oferecer respostas para o Brasil, seus vizinhos e toda a humanidade. De quebra, uma chance única, num contexto belicoso e destrutivo que toma conta da Ásia e sua interface ocidental, de demonstrar o imperativo da comunhão como instrumento de revolução pacífica e crescimento equilibrado ambientalmente, socialmente justo e economicamente próspero. Olhando do ponto de vista local, sem perder o alcance holístico da Panamazônia, vale a pena começar a leitura pelo artigo “Zona Franca de Manaus (ZFM): circunstâncias históricas, cenário contemporâneo e agenda de aperfeiçoamento”, de José Alberto da Costa Machado e Rosa Oliveira Pontes. Num recorte histórico extraordinário, posto que denso e interpretativo, os autores analisam caminhos e descaminhos deste acerto fiscal admirável e sua temerária desconstrução e esvaziamento se não formos capazes de fazer cumprir a lei, executar o projeto e exercer o sagrado dever de casa. Só assim saberemos como, porque e para onde vai caminhar a ZFM.

Contato: [email protected]
Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

O imposto muda de endereço. E como fica o interior do Amazonas?

“A reforma tributária altera a distribuição das receitas e exige que governo, prefeituras e setor produtivo organizem desde já o financiamento do desenvolvimento nos municípios”.

Abraciclo lança guia para orientar uso seguro de veículos elétricos de duas rodas nas cidades brasileiras

"Publicação reúne recomendações sobre segurança viária, regras de circulação...

Adalberto Luís Val, um cientista que ajuda o mundo a compreender a Amazônia

“Reconhecido internacionalmente, pesquisador do Inpa construiu uma trajetória que...
Artigo anterior
Próximo artigo