Lavouras diversificadas enfrentam secas e enchentes com maior produtividade

Pesquisa da USP no Rio Grande do Sul mostra que lavouras com diversificação de culturas produziram até 76% acima da média estadual em safras marcadas por extremos climáticos.

A diversificação de culturas, associada ao uso de plantas que protegem o solo, pode reduzir a vulnerabilidade das lavouras a secas e enchentes. Em propriedades comerciais do Rio Grande do Sul, sistemas mais diversificados alcançaram produtividade até 76% superior à média estadual durante três safras marcadas por extremos climáticos, entre 2022 e 2025.

O resultado foi acompanhado de maior estabilidade nas colheitas, segundo pesquisa do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), da Universidade de São Paulo (USP). Nas áreas com sequências de cultivo mais simples ou apenas uma espécie de cobertura, a produção ficou cerca de 8% acima da média gaúcha e apresentou oscilações anuais entre 33% e 39%.

A diferença indica que a diversificação de culturas pode ajudar a preservar a produção em condições climáticas adversas. O benefício está relacionado à capacidade das plantas de melhorar a estrutura do solo e favorecer o armazenamento de água, ampliando o acesso das culturas à umidade durante as estiagens.

A pesquisa recém-publicada é fruto do trabalho de mestrado de Viviana Meneghini, orientada pelo professor Maurício Roberto Cherubin, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). Os resultados foram publicados na revista Agriculture, Ecosystems & Environment e apresentados por Cherubin durante a FAPESP Week Países Baixos.

Solo protegido favorece a produção

As plantas de cobertura são cultivadas principalmente para proteger e melhorar a terra entre as safras comerciais. A sua presença mantém raízes vivas no terreno e sustenta a atividade de organismos envolvidos na reciclagem de nutrientes.

A diversificação de culturas combina espécies com características distintas e favorece processos que ajudam a disponibilizar nutrientes para a lavoura seguinte. A cobertura contínua também contribui para manter o funcionamento do solo ao longo do ano.

“O estudo aponta que, para manter o solo saudável e funcional, é indispensável garantir a presença de plantas vivas e cobertura vegetal durante todo o ano”, afirmou Cherubin à Agência FAPESP.

Uma das principais consequências observadas foi o aumento da capacidade de armazenar água, independentemente do teor de argila. Isso mostra que o manejo pode melhorar essa função mesmo em terrenos com características naturais diferentes.

Parte do efeito vem das raízes que atravessam camadas compactadas. Quando se decompõem, elas deixam canais que facilitam a circulação de água e ar. As culturas semeadas posteriormente aproveitam esses caminhos para alcançar regiões mais profundas e úmidas, com menor resistência ao crescimento.

Esse mecanismo é especialmente relevante para a agricultura de sequeiro, que depende das chuvas. Ao conservar água e facilitar seu acesso pelas raízes, o solo pode amortecer os efeitos da falta de precipitação e reduzir as oscilações de produtividade.

Desastres também comprometem o manejo

A diversificação de culturas, porém, não elimina os impactos de eventos extremos. Nas enchentes de 2024, 44% dos agricultores que adotavam esses sistemas precisaram alterar o planejamento. O encharcamento do terreno e o atraso na colheita levaram à substituição das plantas de cobertura pelo trigo comercial, na tentativa de recuperar parte da receita perdida.

O episódio evidencia como os desastres podem comprometer tanto a safra quanto a continuidade de práticas que ajudam a proteger as próximas colheitas. A pressão financeira após as perdas influencia as decisões de plantio e pode limitar a manutenção da cobertura vegetal.

O Rio Grande do Sul reúne grande participação na produção agrícola e sofre com a exposição recorrente a eventos climáticos severos. O estado responde por 8,4% da produção brasileira de grãos e concentra 14,4% da área nacional cultivada com soja.

Durante o período estudado, as lavouras enfrentaram situações opostas: houve safras com chuvas até 54% abaixo do padrão histórico e outra com precipitação 40% superior à média. Nesse cenário, as áreas com diversificação de culturas apresentaram maior capacidade de sustentar a produção.

A pesquisa acompanhou 13 experimentos em propriedades comerciais gaúchas, os resultados reforçam o papel do manejo do solo na adaptação agrícola, embora mostrem que seus benefícios também encontram limites diante de grandes desastres.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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