Bolsonaristas exploram incêndios no Amazonas com comparações enganosas e imagens falsas para questionar políticas ambientais e minimizar o histórico de destruição sob Jair Bolsonaro.
A crise de incêndios no Amazonas tornou-se instrumento de uma ofensiva política contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nas redes sociais, parlamentares e apoiadores bolsonaristas exploram imagens do fogo e dados apresentados sem contexto para sustentar que a destruição da Amazônia aumentou sob a gestão petista.
A estratégia associa uma emergência ambiental real à tentativa de relativizar o histórico do governo Jair Bolsonaro (PL), marcado pelo enfraquecimento da fiscalização e pelo avanço do desmatamento. O movimento ocorre durante a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL).
Um dos principais exemplos é o vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) em 10 de outubro. A gravação, que alcançou 28,5 milhões de visualizações, atribui às gestões petistas recordes de queimadas. Outras publicações usam vozes e imagens produzidas por inteligência artificial, incluindo uma representação falsa do governador paulista Tarcísio de Freitas, para acusar o governo de omissão.
Como a desinformação opera
O recurso central das publicações disseminadas por bolsonaristas é tratar queimadas e desmatamento como indicadores equivalentes. Embora relacionados, eles medem processos diferentes: a área queimada corresponde à superfície atingida pelo fogo; enquanto o desmatamento envolve a remoção da vegetação para dar outro uso ao território.
Secas intensas favorecem a propagação de incêndios, inclusive em florestas que permanecem em pé. Isso não reduz a gravidade do fogo, que degrada ecossistemas e ameaça a população, mas impede que seus registros sejam usados isoladamente para afirmar que houve mais derrubada da floresta.
Segundo os dados do Deter, sistema de alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) citados pela DW, a área sob alertas caiu de aproximadamente 4,5 mil quilômetros quadrados para 2,8 mil entre os períodos de agosto de 2024 a julho de 2025 e de agosto de 2025 a julho de 2026. Esses registros orientam a fiscalização e diferem da taxa anual consolidada pelo Prodes. Ao omitir essa distinção, os bolsonaristas transformam o aumento do fogo em argumento para desqualificar a redução do desmatamento e contestar críticas à gestão de Jair Bolsonaro.
Disputa sobre ajuda alimenta ataques
A ofensiva também explora o conflito entre autoridades estaduais e federais. O Corpo de Bombeiros do Amazonas afirmou que um pedido de aeronaves não foi atendido. O Ministério do Meio Ambiente contestou a acusação de falta de assistência e informou que reforços haviam sido dispensados pelo estado em duas ocasiões de setembro.
Segundo a pasta, R$ 34,7 milhões já haviam sido transferidos aos bombeiros amazonenses pelo ProAmazon, financiado pelo Fundo Amazônia. Em 11 de outubro, o governo federal anunciou o envio de 11 aeronaves, além de brigadistas e equipes de saúde.
A Justiça Federal determinou que União, órgãos ambientais e governos estaduais esclareçam as ações de enfrentamento aos incêndios. A cobrança mantém em discussão possíveis falhas de articulação e resposta, que precisam ser apuradas.
Histórico ambiental em disputa
Durante o governo Bolsonaro, o desmatamento acumulado na Amazônia foi 59,9% superior ao dos quatro anos anteriores, segundo os dados reunidos em reportagem do Nexo. O período teve redução da capacidade dos órgãos ambientais e interrupção de políticas de controle.
A partir de 2023, a retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal e do Fundo Amazônia acompanhou a queda dos indicadores. A exploração da crise por bolsonaristas busca deslocar o debate desse histórico para acusações contra o atual governo. A emergência exige fiscalização, combate ao fogo e transparência, mas comparações enganosas prejudicam a análise das responsabilidades e das respostas necessárias para proteger a população e a floresta.