“As pesquisas de Robert Hall e Michael Woodford ajudam a confrontar a promessa de prosperidade pelo encolhimento do Estado e a cobrar explicações sobre os custos do ajuste para famílias e empresas”
O bolsonarismo precisa explicar como pretende conciliar sua promessa de crescimento com a redução das despesas públicas e a confiança na expansão do investimento privado. Essa combinação depende de condições que o discurso eleitoral costuma deixar de lado. Empresas precisam de compradores, trabalhadores precisam de renda e investimentos exigem alguma segurança sobre o futuro. Quando um governo corta despesas, seus efeitos atravessam toda essa cadeia.
O Nobel de Economia de 2026, concedido a Robert Hall e Michael Woodford por suas contribuições aos fundamentos da estabilização macroeconômica, oferece instrumentos para examinar essas promessas. Os pesquisadores ajudaram a compreender como a atuação de governos e bancos centrais pode reduzir as oscilações da economia. Seus trabalhos dão sustentação à intervenção pública em circunstâncias nas quais esperar pela recuperação espontânea significa conviver com perdas de produção e emprego. (nber.org)
A redução do Estado, por si só, não demonstra que uma economia funcionará melhor. É necessário conhecer o que será reduzido, quem depende daquela despesa e de onde virá a atividade que deverá compensar sua retirada.
Hall estudou quanto a produção aumenta quando o governo amplia suas compras. Encontrou resultados que variam conforme as condições econômicas, com efeitos potencialmente maiores quando os juros nominais estão próximos de zero. Woodford também demonstrou que a eficácia do estímulo fiscal depende da resposta da política monetária e das dificuldades de ajuste de preços e salários. Esses resultados exigem diagnóstico e atenção ao momento da economia. (nber.org, nber.org)
Uma empresa que perde encomendas públicas pode reduzir turnos. O trabalhador que perde renda diminui suas compras. O comércio que vende menos adia uma contratação. A possibilidade dessa sequência precisa entrar na avaliação do ajuste, juntamente com os benefícios esperados para as contas públicas. Quem anuncia economia de recursos tem a obrigação de estimar também a atividade econômica que poderá desaparecer.
É nesse ponto que a celebração da motosserra de Javier Milei merece escrutínio. Em julho, reportagem do El País descreveu a dificuldade do governo argentino de sustentar suas metas fiscais diante da queda da arrecadação, depois de cortes em obras, transferências às províncias e despesas de capital. A necessidade de novas reduções expunha uma tensão entre o ajuste e a capacidade de gerar receitas. O episódio, isoladamente, não encerra a avaliação da experiência argentina, mas revela um risco que a propaganda da austeridade costuma minimizar. (elpais.com)
O orçamento reage à economia que o próprio ajuste ajuda a modificar. Uma previsão de economia no papel precisa considerar esse movimento, sob pena de exigir novos cortes para perseguir um resultado que se afasta.
No Brasil, o programa de Flávio Bolsonaro reúne propostas de redução de despesas administrativas, privatizações e expansão do investimento privado, ao mesmo tempo que promete manter programas sociais e ampliar entregas em áreas essenciais. Essa combinação merece ser examinada em seus números, prazos e fontes de financiamento. A intenção de combater desperdícios pode reunir amplo apoio; sua capacidade de financiar todas as promessas precisa ser comprovada. (noticias.uol.com.br)
O eleitor tem razões para exigir uma explicação compreensível. Quais despesas serão cortadas? Qual será o impacto sobre os serviços? Quanto investimento privado está efetivamente contratado? O que acontecerá se a resposta empresarial demorar? Como serão protegidas as famílias durante a transição?
Essas perguntas importam especialmente onde o retorno comercial é insuficiente para atrair, sozinho, os serviços e investimentos necessários. Na Amazônia, uma proposta de retração pública precisa esclarecer como atenderá comunidades distantes, financiará pesquisa e sustentará infraestrutura. A promessa genérica de que haverá interessados em ocupar esses espaços não resolve o problema.
Hall e Woodford tampouco oferecem autorização para gastar sem critério. A estabilidade de preços e a qualidade da política monetária fazem parte das preocupações de Woodford. A leitura de suas pesquisas exige considerar tanto os riscos da inflação quanto as perdas associadas à instabilidade da atividade econômica. (business.columbia.edu)
A responsabilidade de quem governa inclui avaliar alternativas e demonstrar por que escolheu determinado caminho. O sofrimento provocado por uma política não comprova sua necessidade, assim como a melhora de um indicador não encerra a discussão sobre seus resultados.
Antes de entregar novamente ao bolsonarismo a condução da economia, o país precisa conhecer a conta completa de suas promessas. Isso inclui o orçamento, o emprego, o poder de compra e a continuidade dos serviços dos quais milhões de brasileiros dependem. As pesquisas premiadas ajudam a qualificar essa cobrança; cabe aos candidatos responder a ela antes que os custos se tornem decisões de governo.
A comparação com a Argentina foi incorporada pela própria campanha de Flávio Bolsonaro. Em setembro, sua coordenadora econômica, Daniella Marques, afirmou que o governo de Javier Milei serviria de inspiração. Essa escolha torna indispensável examinar os resultados do modelo que se pretende trazer para o Brasil. (bloomberglinea.com.br)
No primeiro semestre de 2026, a pobreza atingiu 32,3% das pessoas nos 31 aglomerados urbanos pesquisados pelo Indec, ante 28,2% no semestre anterior. A indigência subiu de 6,3% para 7,5%. Entre as crianças de até 14 anos, 44,5% viviam em domicílios abaixo da linha de pobreza. A explicação imediata aparece no próprio levantamento: a renda familiar por pessoa cresceu 11,5%, enquanto a cesta básica alimentar aumentou 21,4%. O orçamento doméstico voltou a perder capacidade de sustentar necessidades elementares. (indec.gob.ar)
A trajetória exige uma leitura completa. A pobreza havia alcançado 52,9% no primeiro semestre de 2024 e recuado posteriormente, chegando a níveis inferiores aos 41,7% registrados no segundo semestre de 2023. Houve, portanto, melhora depois do choque inicial. O aumento de 2026 revela a fragilidade dessa recuperação social, sem autorizar a descrição de um empobrecimento contínuo durante todo o governo Milei. (indec.gob.ar, indec.gob.ar)
A atividade econômica também emitiu sinais de enfraquecimento. No segundo trimestre de 2026, o PIB argentino caiu 0,6% em relação ao trimestre anterior, descontados os efeitos sazonais. O consumo privado recuou 2,4%, o consumo público, 2,3%, e o investimento em capital fixo, 0,8%. Embora o produto ainda estivesse 2% acima do mesmo período de 2025, a retração simultânea desses componentes mostra que a expansão do setor privado não compensou automaticamente o recuo da demanda pública naquele trimestre. (indec.gob.ar)
Esses indicadores, isoladamente, não permitem atribuir toda a deterioração aos cortes fiscais. Permitem, porém, cobrar dos defensores do modelo uma explicação sobre seus mecanismos de proteção, seus efeitos sobre a demanda e sua capacidade de sustentar a recuperação. É nessa discussão que os trabalhos de Hall e Woodford ajudam: o resultado de uma política depende das condições em que ela é aplicada, da reação dos juros e das decisões de famílias e empresas.
Ao apresentar a experiência argentina como inspiração, a campanha de Flávio assume a obrigação de explicar como evitaria a repetição desses custos no Brasil. Quais despesas seriam reduzidas, quais serviços seriam preservados e de onde viria a renda necessária para sustentar o investimento privado? Para as famílias que dependem de salário, aposentadoria e atendimento público, essas respostas precisam chegar antes da eleição. Depois, a correção de uma escolha econômica pode levar anos, enquanto suas consequências entram imediatamente dentro de casa.