O Nobel e a conta que o bolsonarismo precisa explicar

O bolsonarismo precisa explicar como pretende conciliar sua promessa de crescimento com a redução das despesas públicas e a confiança na expansão do investimento privado. Essa combinação depende de condições que o discurso eleitoral costuma deixar de lado. Empresas precisam de compradores, trabalhadores precisam de renda e investimentos exigem alguma segurança sobre o futuro. Quando um governo corta despesas, seus efeitos atravessam toda essa cadeia.

O Nobel de Economia de 2026, concedido a Robert Hall e Michael Woodford por suas contribuições aos fundamentos da estabilização macroeconômica, oferece instrumentos para examinar essas promessas. Os pesquisadores ajudaram a compreender como a atuação de governos e bancos centrais pode reduzir as oscilações da economia. Seus trabalhos dão sustentação à intervenção pública em circunstâncias nas quais esperar pela recuperação espontânea significa conviver com perdas de produção e emprego. (nber.org)

2026 10 12t171814z 1973845998 rc2l1oaxiy2q rtrmadp 3 nobel prize economics.jpg

A redução do Estado, por si só, não demonstra que uma economia funcionará melhor. É necessário conhecer o que será reduzido, quem depende daquela despesa e de onde virá a atividade que deverá compensar sua retirada.

Hall estudou quanto a produção aumenta quando o governo amplia suas compras. Encontrou resultados que variam conforme as condições econômicas, com efeitos potencialmente maiores quando os juros nominais estão próximos de zero. Woodford também demonstrou que a eficácia do estímulo fiscal depende da resposta da política monetária e das dificuldades de ajuste de preços e salários. Esses resultados exigem diagnóstico e atenção ao momento da economia. (nber.org, nber.org)

Uma empresa que perde encomendas públicas pode reduzir turnos. O trabalhador que perde renda diminui suas compras. O comércio que vende menos adia uma contratação. A possibilidade dessa sequência precisa entrar na avaliação do ajuste, juntamente com os benefícios esperados para as contas públicas. Quem anuncia economia de recursos tem a obrigação de estimar também a atividade econômica que poderá desaparecer.

É nesse ponto que a celebração da motosserra de Javier Milei merece escrutínio. Em julho, reportagem do El País descreveu a dificuldade do governo argentino de sustentar suas metas fiscais diante da queda da arrecadação, depois de cortes em obras, transferências às províncias e despesas de capital. A necessidade de novas reduções expunha uma tensão entre o ajuste e a capacidade de gerar receitas. O episódio, isoladamente, não encerra a avaliação da experiência argentina, mas revela um risco que a propaganda da austeridade costuma minimizar. (elpais.com)

O orçamento reage à economia que o próprio ajuste ajuda a modificar. Uma previsão de economia no papel precisa considerar esse movimento, sob pena de exigir novos cortes para perseguir um resultado que se afasta.

No Brasil, o programa de Flávio Bolsonaro reúne propostas de redução de despesas administrativas, privatizações e expansão do investimento privado, ao mesmo tempo que promete manter programas sociais e ampliar entregas em áreas essenciais. Essa combinação merece ser examinada em seus números, prazos e fontes de financiamento. A intenção de combater desperdícios pode reunir amplo apoio; sua capacidade de financiar todas as promessas precisa ser comprovada. (noticias.uol.com.br)

O eleitor tem razões para exigir uma explicação compreensível. Quais despesas serão cortadas? Qual será o impacto sobre os serviços? Quanto investimento privado está efetivamente contratado? O que acontecerá se a resposta empresarial demorar? Como serão protegidas as famílias durante a transição?

bolsonarismo

Essas perguntas importam especialmente onde o retorno comercial é insuficiente para atrair, sozinho, os serviços e investimentos necessários. Na Amazônia, uma proposta de retração pública precisa esclarecer como atenderá comunidades distantes, financiará pesquisa e sustentará infraestrutura. A promessa genérica de que haverá interessados em ocupar esses espaços não resolve o problema.

Hall e Woodford tampouco oferecem autorização para gastar sem critério. A estabilidade de preços e a qualidade da política monetária fazem parte das preocupações de Woodford. A leitura de suas pesquisas exige considerar tanto os riscos da inflação quanto as perdas associadas à instabilidade da atividade econômica. (business.columbia.edu)

A responsabilidade de quem governa inclui avaliar alternativas e demonstrar por que escolheu determinado caminho. O sofrimento provocado por uma política não comprova sua necessidade, assim como a melhora de um indicador não encerra a discussão sobre seus resultados.

Antes de entregar novamente ao bolsonarismo a condução da economia, o país precisa conhecer a conta completa de suas promessas. Isso inclui o orçamento, o emprego, o poder de compra e a continuidade dos serviços dos quais milhões de brasileiros dependem. As pesquisas premiadas ajudam a qualificar essa cobrança; cabe aos candidatos responder a ela antes que os custos se tornem decisões de governo.

A comparação com a Argentina foi incorporada pela própria campanha de Flávio Bolsonaro. Em setembro, sua coordenadora econômica, Daniella Marques, afirmou que o governo de Javier Milei serviria de inspiração. Essa escolha torna indispensável examinar os resultados do modelo que se pretende trazer para o Brasil. (bloomberglinea.com.br)

No primeiro semestre de 2026, a pobreza atingiu 32,3% das pessoas nos 31 aglomerados urbanos pesquisados pelo Indec, ante 28,2% no semestre anterior. A indigência subiu de 6,3% para 7,5%. Entre as crianças de até 14 anos, 44,5% viviam em domicílios abaixo da linha de pobreza. A explicação imediata aparece no próprio levantamento: a renda familiar por pessoa cresceu 11,5%, enquanto a cesta básica alimentar aumentou 21,4%. O orçamento doméstico voltou a perder capacidade de sustentar necessidades elementares. (indec.gob.ar)

A trajetória exige uma leitura completa. A pobreza havia alcançado 52,9% no primeiro semestre de 2024 e recuado posteriormente, chegando a níveis inferiores aos 41,7% registrados no segundo semestre de 2023. Houve, portanto, melhora depois do choque inicial. O aumento de 2026 revela a fragilidade dessa recuperação social, sem autorizar a descrição de um empobrecimento contínuo durante todo o governo Milei. (indec.gob.ar, indec.gob.ar)

A atividade econômica também emitiu sinais de enfraquecimento. No segundo trimestre de 2026, o PIB argentino caiu 0,6% em relação ao trimestre anterior, descontados os efeitos sazonais. O consumo privado recuou 2,4%, o consumo público, 2,3%, e o investimento em capital fixo, 0,8%. Embora o produto ainda estivesse 2% acima do mesmo período de 2025, a retração simultânea desses componentes mostra que a expansão do setor privado não compensou automaticamente o recuo da demanda pública naquele trimestre. (indec.gob.ar)

Esses indicadores, isoladamente, não permitem atribuir toda a deterioração aos cortes fiscais. Permitem, porém, cobrar dos defensores do modelo uma explicação sobre seus mecanismos de proteção, seus efeitos sobre a demanda e sua capacidade de sustentar a recuperação. É nessa discussão que os trabalhos de Hall e Woodford ajudam: o resultado de uma política depende das condições em que ela é aplicada, da reação dos juros e das decisões de famílias e empresas.

Ao apresentar a experiência argentina como inspiração, a campanha de Flávio assume a obrigação de explicar como evitaria a repetição desses custos no Brasil. Quais despesas seriam reduzidas, quais serviços seriam preservados e de onde viria a renda necessária para sustentar o investimento privado? Para as famílias que dependem de salário, aposentadoria e atendimento público, essas respostas precisam chegar antes da eleição. Depois, a correção de uma escolha econômica pode levar anos, enquanto suas consequências entram imediatamente dentro de casa.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

“O AMAZONAS espera que cada um cumpra o seu dever”

Parodiando o Almirante Barroso, frente à famosa Batalha de...

O debate fiscal visto da Amazônia 

“A dívida pública e o país que fica fora...

Petrobras registra 3ª descoberta de petróleo na Foz do Amazonas

Petrobras registra terceira descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, no poço Morpho, e conclui a perfuração na costa do Amapá.

Governo prevê rastrear máquinas para combater garimpo ilegal na Amazônia

Nova regra prevê rastrear máquinas para combater o garimpo ilegal na Amazônia, enquanto falhas no controle de combustíveis desafiam a fiscalização.

Indicado a secretário de Meio Ambiente do Pará tem autuação por desmatamento

Futuro secretário de Meio Ambiente do Pará foi multado em R$ 3,4 milhões por desmatamento e indiciado pela PF por dificultar fiscalização.