“Com 272 mil bicicletas produzidas em 2026, Polo Industrial de Manaus consolida a expansão dos modelos elétricos, amplia sua participação na mobilidade sustentável e reforça o papel da indústria amazônica no abastecimento do mercado brasileiro“
A indústria de bicicletas do Polo Industrial de Manaus (PIM) atravessa uma transformação em seu perfil produtivo. Enquanto a fabricação total mantém trajetória de estabilidade, com ligeiro crescimento no acumulado do ano, as bicicletas elétricas avançam em ritmo acelerado e se consolidam como uma das principais apostas do setor. O movimento acompanha a procura por novas alternativas de mobilidade urbana e abre perspectivas para a incorporação de tecnologias, componentes e soluções industriais de maior valor agregado.
Segundo levantamento da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), as fábricas instaladas em Manaus produziram 35.914 bicicletas em setembro de 2026, crescimento de 18,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior e de 1,1% na comparação com agosto.
O desempenho foi o segundo melhor de 2026, atrás apenas de julho, quando foram fabricadas 37.413 unidades. Entre janeiro e setembro, a produção acumulada chegou a 272.018 bicicletas, alta de 0,7% sobre igual período de 2025.
Embora o crescimento agregado ainda seja discreto, a composição da produção revela uma mudança relevante. As bicicletas elétricas alcançaram 61.885 unidades nos primeiros nove meses do ano, expansão de 85,7% em relação a 2025. Com isso, passaram a responder por 22,8% de todas as bicicletas fabricadas no PIM.
Bicicletas elétricas ampliam espaço na indústria amazônica
O avanço dos modelos elétricos representa uma das principais mudanças recentes na indústria brasileira de bicicletas. A categoria já ocupa a segunda posição no ranking de produção de Manaus, atrás apenas das tradicionais mountain bikes (MTB), responsáveis por 38,4% do volume acumulado. Os modelos urbanos e de lazer aparecem na terceira posição, com 20,1%.
A expansão sugere um processo de diversificação que pode ganhar importância estratégica para o Polo Industrial de Manaus. A fabricação de bicicletas com assistência elétrica envolve demandas específicas por sistemas eletrônicos, baterias, motores, controladores e componentes de precisão, ampliando as possibilidades de integração com outras competências industriais presentes na região.
Esse movimento aproxima o setor de bicicletas de atividades ligadas à eletrificação, à eficiência energética e à inovação tecnológica, áreas que também ganham importância em outros segmentos da indústria nacional.
Para o Amazonas, o desafio será transformar o crescimento desse mercado em oportunidades duradouras de desenvolvimento industrial, qualificação profissional, pesquisa e desenvolvimento e fortalecimento das cadeias de fornecedores.
A presença de uma base industrial diversificada em Manaus oferece condições para explorar essas conexões, embora sua concretização dependa de investimentos, escala produtiva, capacitação tecnológica e articulação entre empresas, instituições de pesquisa e políticas públicas.
Sudeste concentra mais da metade da produção de Manaus
A distribuição regional das bicicletas fabricadas no PIM confirma a importância da indústria amazonense para o abastecimento do mercado nacional.
Em setembro, o Sudeste recebeu 20.082 unidades, equivalentes a 55,9% de toda a produção do mês. O Sul apareceu na segunda posição, com 14,3%, seguido pelo Nordeste e Centro-Oeste, ambos com participação próxima de 11%. A região Norte respondeu por 7,8%.
No acumulado de janeiro a setembro, o Sudeste manteve a liderança, com 55,8% das bicicletas produzidas, seguido pelo Sul (15%), Nordeste (12%), Centro-Oeste (10,5%) e Norte (6,7%).
A predominância do Sudeste evidencia a conexão entre a produção industrial amazônica e os principais mercados consumidores do país. Bicicletas fabricadas em Manaus percorrem grandes distâncias até chegar aos centros de distribuição e aos consumidores brasileiros, em uma operação que depende da integração logística entre a Amazônia e as demais regiões.
O resultado também reforça a dimensão nacional da Zona Franca de Manaus. O modelo industrial instalado no Amazonas participa de cadeias de abastecimento que movimentam transportes, comércio, serviços e atividades econômicas em diferentes estados.
Mobilidade elétrica exige novas políticas urbanas
O crescimento das bicicletas elétricas também coloca novos desafios para a organização da mobilidade nas cidades brasileiras.
Com a ampliação da circulação desses veículos, tornam-se mais relevantes as discussões sobre infraestrutura cicloviária, segurança no trânsito, classificação dos equipamentos e regras de convivência entre bicicletas, veículos motorizados e pedestres.
Nesse contexto, a Abraciclo anunciou para 3 de novembro o lançamento do caderno técnico Utilização de veículos elétricos de duas rodas nas cidades brasileiras.
A publicação reunirá orientações sobre classificação dos diferentes veículos, regras de circulação, requisitos de infraestrutura e medidas de segurança viária. O material será destinado a órgãos municipais e estaduais de trânsito, entidades representativas, empresas, estabelecimentos comerciais, prestadores de serviços e condomínios.
A iniciativa procura oferecer subsídios técnicos ao planejamento e à implementação de políticas públicas, em um momento em que o crescimento da mobilidade elétrica exige maior atenção dos gestores urbanos.
O avanço industrial precisa encontrar correspondência na capacidade das cidades de incorporar essas tecnologias com segurança e acessibilidade. Ciclovias adequadas, fiscalização, sinalização e educação para o trânsito são componentes essenciais desse processo.
Nova liderança na Abraciclo e perspectivas para o setor
A Abraciclo também anunciou uma mudança em sua estrutura de representação. Ronaldo Ribeiro, CEO da Caloi desde fevereiro de 2026, assumiu a vice-presidência do segmento de bicicletas da entidade, sucedendo Fernando Rocha.
Engenheiro químico formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ribeiro possui mestrado em Global Supply Chain pelo IE Business School e formação executiva pela Kellogg School of Management, da Northwestern University.
Com quase três décadas de atuação na indústria de bens de consumo, acumula experiência em posições de liderança e gestão de negócios na América Latina, Europa e Estados Unidos.
A mudança ocorre em um período de reorganização das perspectivas industriais do setor. A Abraciclo projeta a fabricação de 350 mil bicicletas em 2026, crescimento de 4,3% em relação ao resultado de 2025.
O desempenho dos próximos meses será decisivo para verificar a realização dessa expectativa, sobretudo diante da expansão da categoria elétrica e das condições de consumo no mercado brasileiro.
Indústria, tecnologia e desenvolvimento sustentável
Fundada em 1976, a Abraciclo completa 50 anos em 2026, reunindo atualmente 15 empresas associadas e desempenhando papel importante na representação da indústria brasileira de duas rodas.
O setor integra uma das cadeias produtivas mais representativas da Zona Franca de Manaus. Segundo a entidade, o Brasil ocupa a quarta posição entre os maiores produtores mundiais de bicicletas, enquanto a fabricação nacional de motocicletas figura entre as seis maiores do planeta.
Considerando o conjunto das fabricantes do setor de duas rodas, são aproximadamente 21,8 mil empregos diretos em Manaus e mais de 154 mil postos de trabalho no Brasil, conforme informações da associação.
Para além dos indicadores de produção, a expansão das bicicletas elétricas permite observar uma agenda mais ampla para o desenvolvimento industrial amazônico.
A incorporação de novas tecnologias, a formação de profissionais especializados, a integração com fornecedores de componentes eletrônicos e o desenvolvimento de soluções de armazenamento de energia podem ampliar a participação regional em cadeias produtivas associadas à transição energética.
O crescimento de 85,7% na fabricação de bicicletas elétricas oferece um sinal concreto dessas possibilidades. Sua importância para o futuro da Zona Franca dependerá da capacidade de converter a expansão do mercado em investimento produtivo, domínio tecnológico e geração de oportunidades econômicas na própria Amazônia.
O desafio envolve indústria, universidades, centros de pesquisa e políticas de desenvolvimento regional. Em uma economia que busca conciliar competitividade, redução de desigualdades e preservação ambiental, a mobilidade elétrica pode se tornar mais um campo de inovação para o Polo Industrial de Manaus.
Fonte: Abraciclo. Dados de produção referentes a setembro e ao acumulado de janeiro a setembro de 2026.