“Proposta apresentada a investidores na Eurasia prevê redução de até R$ 200 bilhões em despesas e mudanças constitucionais antes da posse de um eventual governo Flávio Bolsonaro. A dimensão do ajuste exige explicações sobre quem pagaria a conta.”
A inspiração argentina assumida pela campanha de Flávio Bolsonaro começa a ganhar expressão concreta no Brasil. Depois de apontar o governo de Javier Milei como referência econômica, integrantes da equipe do candidato passaram a apresentar um ajuste de até R$ 200 bilhões nas despesas públicas. A motosserra encontra sua tradução brasileira no “tesouraço”, acompanhado de uma pergunta que permanece sem resposta suficientemente detalhada: de onde sairia esse dinheiro? (noticias.r7.com, www1.folha.uol.com.br)
“Promessa feita, promessa cumprida” ainda seria uma antecipação se aplicada à execução dos cortes. Mas a aproximação entre a referência política e a proposta econômica já pode ser examinada. Em setembro, durante evento do Grupo Esfera, Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, apresentou as reformas de Milei como inspiração. Agora, a discussão envolve valores, alterações na Constituição e uma estratégia para conseguir aprovação parlamentar. (noticias.r7.com, jb.com.br, www1.folha.uol.com.br)
O eleitor precisa conhecer o conteúdo desse compromisso antes que uma vitória nas urnas seja interpretada como autorização para executá-lo.
O compromisso apresentado aos investidores
Segundo reportagem de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, o assessor econômico Luiz Felipe Trevisan apresentou a investidores, em reunião na consultoria Eurasia, uma proposta de redução de despesas entre R$ 190 bilhões e R$ 200 bilhões. A estratégia seria reunir medidas numa “Super PEC” e submetê-las ao atual Congresso, entre a eleição e a posse, aproveitando o capital político de um presidente recém-eleito. (www1.folha.uol.com.br)
O desenho relatado priorizaria mudanças na máquina pública, evitando inicialmente cortes previdenciários e nos benefícios sociais. Incluía também o fim da reeleição presidencial como elemento da negociação política. A própria campanha, entretanto, registra resistências à viabilidade de aprovar tamanho ajuste antes da posse. Há uma proposta apresentada ao mercado, mas ainda falta demonstrar como suas parcelas fechariam a conta. (www1.folha.uol.com.br)
Essa lacuna ganha importância diante das mensagens divergentes dos porta-vozes. Em análise publicada no UOL, José Paulo Kupfer contrapôs a defesa do “tesouraço” por Daniella Marques às declarações de Adolfo Sachsida, que assegurou a preservação de programas sociais e atribuiu a economia ao combate a excessos, supersalários e estruturas administrativas inchadas. (economia.uol.com.br)
Combater desperdícios é uma obrigação permanente. Para sustentar uma promessa de R$ 200 bilhões, porém, é necessário apresentar estimativas verificáveis, prazos e despesas específicas. Sem isso, o anúncio oferece aos investidores uma expectativa de economia cuja distribuição social continua obscura.
A advertência de Toledo
No programa A Hora, do UOL, o jornalista José Roberto de Toledo chamou atenção justamente para essa distância. Em sua avaliação, um ajuste dessa magnitude alcançaria saúde, educação, aposentadorias, funcionalismo e a valorização do salário mínimo. Trata-se de uma interpretação sobre as consequências do pacote, que a campanha precisa enfrentar com números e propostas discriminadas. (noticias.uol.com.br)
O salário mínimo ajuda a compreender o que está em discussão. Repor a inflação preserva, em princípio, o poder de compra; conceder aumento real permite ampliá-lo. Segundo a Folha, o site criado pela campanha para contestar acusações garante a correção pela inflação, sem assegurar ganhos reais. Essa formulação merece esclarecimento porque manter nominalmente um benefício e preservar sua política de valorização são compromissos diferentes. (www1.folha.uol.com.br)
O precedente argentino
A comparação com Milei exige observar a composição do ajuste. Na Argentina, a redução real do gasto público em 2024 atingiu aposentadorias, subsídios, transferências às províncias e investimentos em obras públicas. São despesas que sustentam renda, serviços e atividade econômica nos territórios. (infobae.com)
O primeiro ano também expôs a intensidade da crise social. Nos 31 aglomerados urbanos pesquisados pelo Indec, a pobreza atingiu 52,9% no primeiro semestre de 2024 e recuou para 38,1% no segundo. Registrar a recuperação posterior é necessário para avaliar a experiência com honestidade, assim como reconhecer a dimensão da privação vivida durante o choque inicial. Esses números, isoladamente, não permitem atribuir toda a trajetória a uma única política. (indec.gob.ar, indec.gob.ar)
Para o Brasil, a questão é quais componentes dessa experiência a campanha pretende reproduzir. Na Amazônia, onde atendimento de saúde, educação e infraestrutura enfrentam grandes distâncias, reduzir recursos pode comprometer serviços que já chegam com dificuldade. Qualquer proposta de ajuste precisa explicar como preservará esse atendimento.
A apresentação feita na Eurasia torna indispensável uma prestação de contas ao eleitor. Se a inspiração é Milei e o compromisso anunciado envolve R$ 200 bilhões, cabe à campanha mostrar quais despesas serão reduzidas, quais garantias serão preservadas e quem suportará a transição. A escolha do instrumento, motosserra ou tesoura, interessa menos às famílias do que saber até onde o corte chegará.