O clima no debate eleitoral e a conta que chega ao Amazonas

Uma eleição no Amazonas precisa discutir o que acontece quando o rio deixa de oferecer passagem, a fumaça entra nas casas e o calor torna mais difícil trabalhar e estudar. Nessas circunstâncias, as promessas de emprego, saúde e desenvolvimento passam a depender também da capacidade de antecipar riscos climáticos. Há uma pergunta atravessando todas elas: como assegurar serviços e atividade econômica num território cada vez mais exposto a interrupções?

O assunto merece lugar permanente nas entrevistas e nos debates. Quem pretende administrar recursos públicos precisa explicar como vai proteger a população, preparar a infraestrutura e reduzir os fatores que agravam os danos. E quem pede um mandato parlamentar deve dizer quais prioridades pretende financiar e fiscalizar.

debate eleitoral

Segundo o Inmet, 2024 foi o ano mais quente no Brasil na série de 1961 a 2024. A temperatura média chegou a 25,02°C, ficando 0,79°C acima da referência de 1991 a 2020. A média nacional não descreve, sozinha, o sofrimento de cada cidade, mas oferece uma medida objetiva da mudança nas condições em que o país produz e vive. Inmet⁠

O relatório do Cemaden sobre 2025 registrou sete ondas de calor e 1.493 ocorrências associadas a eventos hidrológicos e geológicos, como inundações, enxurradas e deslizamentos. Ao longo daquele ano, até 503 municípios chegaram à condição de seca severa ou extrema. São fenômenos distintos, com causas e vulnerabilidades locais que precisam ser examinadas, mas o conjunto evidencia a dimensão da tarefa de prevenção. Cemaden⁠

A fumaça também deixou registros mensuráveis. Entre 1º e 7 de setembro de 2024, o Ministério da Saúde identificou 2.926 municípios com concentrações de partículas finas superiores à diretriz diária da Organização Mundial da Saúde. O informe aponta maior vulnerabilidade de crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças cardiorrespiratórias e trabalhadores ao ar livre. A poluição decorrente das queimadas tem efeitos próprios sobre a saúde e exige respostas específicas, articuladas à política climática. Ministério da Saúde⁠

Esses dados não autorizam atribuir cada desastre exclusivamente ao aquecimento global. Ocupação do solo, desmatamento, queimadas, infraestrutura inadequada e insuficiência de prevenção também influenciam os prejuízos. É justamente nessa combinação que aparecem as responsabilidades de governo.

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No Amazonas, a relação entre clima e economia pode ser observada no percurso de uma mercadoria. A redução das condições de navegação limita cargas, exige reorganização das viagens e pode elevar custos. O problema alcança o abastecimento das comunidades e a logística das empresas. Seus efeitos dependem da intensidade da estiagem, da rota e da preparação de cada operação.

Por isso, defender a competitividade do Polo Industrial de Manaus exige incorporar o risco climático ao planejamento. Incentivos, investimentos e expansão da produção precisam ser acompanhados por segurança logística, energia confiável e condições de trabalho compatíveis com o calor. Uma candidatura que promete desenvolvimento deve explicar como pretende enfrentar essas dependências.

Para o interior, a cobrança inclui água potável, continuidade do atendimento de saúde, transporte escolar e condições para produzir e comercializar alimentos. As soluções precisam considerar distâncias, conhecimentos locais e diferenças entre bacias. Um plano elaborado apenas a partir da capital tende a deixar lacunas justamente onde o acesso aos serviços já é mais difícil.

Há ainda uma escolha econômica de longo prazo. Financiar pesquisa, manejo sustentável, recuperação de áreas degradadas e cadeias produtivas da biodiversidade pode ampliar as alternativas de renda ligadas à floresta em pé. Isso exige assistência técnica, acesso a mercados e continuidade institucional. A palavra “bioeconomia” no programa eleitoral precisa vir acompanhada dessas condições.

Uma proposta climática pode ser avaliada por perguntas bastante práticas. Quanto será destinado à prevenção? Que estruturas estarão prontas antes do período crítico? Quem responderá pelos resultados? Como a sociedade acompanhará a execução?

A distribuição de responsabilidades também precisa aparecer. Candidatos ao Executivo devem apresentar capacidade de coordenação e execução. Candidatos ao Legislativo precisam esclarecer prioridades orçamentárias, posições sobre políticas ambientais e disposição para fiscalizar gastos e resultados. A cooperação com os municípios deve integrar esse desenho.

Para quem já exerceu mandato, o histórico oferece critérios adicionais. Quanto do recurso anunciado foi efetivamente aplicado? Quais equipes foram estruturadas? Que recomendações técnicas foram atendidas? A existência de um plano é apenas uma parte da avaliação; sua execução precisa ser demonstrada.

Entidades empresariais, universidades, organizações comunitárias e veículos de comunicação podem submeter essas perguntas a todas as candidaturas, com critérios públicos e iguais. A independência partidária permite cobrar coerência entre promessas e decisões, inclusive quando a resposta desagrada a interlocutores próximos.

O clima precisa entrar no debate eleitoral porque influencia a viabilidade das demais promessas. No Amazonas, uma proposta de desenvolvimento será mais consistente se explicar como pretende manter comunidades abastecidas, trabalhadores protegidos e empresas funcionando durante os períodos críticos. O eleitor tem o direito de conhecer esse planejamento antes de entregar a alguém a responsabilidade de executá-lo.

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