Lula na ONU: a coragem de dizer que o mundo não tem dono

Coluna Follow-Up

Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump ocuparam a mesma tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no dia 22 de setembro. Falavam diante dos mesmos chefes de Estado, dentro da instituição criada para impedir que a força militar voltasse a governar as relações entre as nações. Seus discursos, porém, pareciam vir de épocas políticas distintas.

Trump falou como comandante da maior potência militar do planeta. Lula, como presidente de um país que conhece o peso das grandes potências, mas se recusa a aceitar que essa desigualdade determine o destino dos demais.

O presidente norte-americano apresentou operações militares, sanções econômicas e ameaças de aniquilação como demonstrações de liderança. Reivindicou para si o encerramento de oito guerras, defendeu a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, anunciou o fortalecimento da presença militar na Groenlândia e advertiu que Washington usará sua “incomparável força militar” sempre que considerar ameaçados os seus interesses nacionais.

Ao falar do Irã, Trump disse estar diante da escolha entre um acordo e a possibilidade de “aniquilar a República Islâmica”. Também convocou os países a impor o completo isolamento econômico iraniano. Na América Latina, descreveu os cartéis como uma espécie de Estado Islâmico do hemisfério e justificou o emprego das Forças Armadas norte-americanas contra eles. A síntese oficial da Assembleia Geral registra ainda a defesa de uma ordem regional na qual os Estados Unidos se atribuem o direito de decidir quando, onde e contra quem agir.

Lula respondeu sem pronunciar o nome de Trump. Não precisava. Cada passagem de seu discurso dialogava com a realidade política instalada pelo presidente norte-americano.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”

A frase tem uma dimensão maior do que sua eficácia retórica. Ela recoloca o Brasil dentro de uma tradição diplomática que recusa a divisão do planeta em zonas de influência. Na atual conjuntura, pronunciá-la diante do presidente dos Estados Unidos, a poucos dias das eleições brasileiras e em meio às tentativas de ingerência externa no processo político nacional, exigiu uma coragem que precisa ser compreendida em seu contexto.

Lula não estava protegido pela igualdade abstrata entre os Estados. Falava diante da potência que controla instrumentos financeiros, tecnológicos, militares e comerciais capazes de impor custos concretos aos países que resistem aos seus interesses. Falava depois de tarifas aplicadas à economia brasileira, de pressões sobre instituições nacionais e da retomada explícita de uma doutrina hemisférica que trata a América Latina como espaço estratégico subordinado a Washington.

A coragem consistiu em estabelecer limites

O Brasil combaterá o crime organizado, disse Lula, mas não terceirizará a proteção de suas fronteiras. O país precisa de cooperação para interromper os fluxos internacionais de armas e dinheiro, e dispensa “porta-aviões vigiando nossas águas”. A escolha dessas palavras foi precisa. Sob o argumento de combater o narcotráfico e organizações criminosas, abre-se uma passagem perigosa para intervenções militares, operações extraterritoriais e enquadramentos jurídicos decididos unilateralmente por Washington.

Essa diferença atravessou os dois discursos. Para Trump, a soberania aparece como privilégio de quem possui força suficiente para impô-la. Para Lula, ela é um direito comum às nações, inclusive às que não dispõem de grandes arsenais. Um considera legítima a expansão do poder norte-americano quando seus interesses estão em jogo. O outro recorda que uma ordem internacional digna desse nome depende de regras que também contenham os mais poderosos.

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foto: Igor Omilaev/Unsplash

Lula foi igualmente direto ao tratar dos recursos estratégicos brasileiros. O Brasil possui minerais críticos e terras raras indispensáveis à transição energética, mas o acesso a essas riquezas deverá gerar valor no território nacional, transferência de tecnologia e suprimento para setores estratégicos do país.

Para a Amazônia, essa passagem tem especial importância 

Minerais, água, biodiversidade, energia e conhecimento genético voltaram ao centro da disputa mundial. Quando Lula afirma que as riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro, a mensagem alcança governos, corporações e investidores que ainda observam a região como reserva de matérias-primas disponível às necessidades industriais das potências.

O presidente também associou soberania territorial, autonomia econômica e independência tecnológica. Defendeu o Pix como infraestrutura pública de inclusão financeira, criticou a corrida desregulada das big techs e da inteligência artificial e advertiu contra uma “tecno-oligarquia” interessada em operar sem regras nem transparência.

Trump apresentou a inteligência artificial, rebatizada por ele como “superinteligência”, como uma competição que precisa ser vencida pelos Estados Unidos. “Quem vencer a superinteligência, vence”, declarou. Lula observou a mesma tecnologia pelo ângulo de suas consequências humanas, democráticas e sociais. Falou de algoritmos, proteção de crianças, remuneração de criadores e responsabilidade empresarial.

Novamente, duas ideias de futuro apareceram na tribuna. Uma mede o avanço tecnológico pela capacidade de um país dominar os demais. A outra pergunta quem controlará essa tecnologia, quem responderá por seus danos e como seus benefícios poderão ser socialmente distribuídos.

A crítica de Lula à ONU também foi severa. Ele descreveu o Conselho de Segurança como uma estrutura imobilizada pelo poder de veto e afirmou que a credibilidade da organização nunca esteve tão baixa. O ano de 2025, lembrou, registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. A diferença está na resposta oferecida a esse fracasso.

Trump atacou o Tribunal Penal Internacional, recomendou que seus integrantes abandonassem a instituição e acusou organismos multilaterais de promoverem uma agenda globalista. Lula cobrou a recuperação da capacidade política das Nações Unidas, a reforma de sua governança e o fortalecimento da diplomacia. Em sua formulação mais aguda, afirmou que “a guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”.

A frase talvez contenha o núcleo de seu discurso.

Trump apresentou a guerra como extensão possível da vontade presidencial. Lula a descreveu como demonstração da incapacidade dos governantes. O presidente norte-americano enumerou inimigos a serem eliminados, países a serem pressionados e instituições a serem enfraquecidas. O brasileiro falou dos vulneráveis, dos povos sem exércitos e dos países que dependem do direito internacional para não serem esmagados pela força.

Houve, no discurso de Lula, as tensões conhecidas da política brasileira. Ao defender a agenda climática, reafirmou a exploração de petróleo e a pesquisa de novas reservas na Margem Equatorial. Levou à tribuna internacional temas diretamente relacionados à campanha eleitoral, como o fim da escala 6×1, a defesa do Pix e o embate contra as plataformas de apostas. Essas escolhas tornam o pronunciamento discutível em alguns pontos e sujeito ao exame crítico que toda fala de governo merece.

As críticas não reduzem, contudo, sua importância histórica

O alcance do discurso está na tentativa de reunir democracia, soberania, proteção ambiental, autonomia tecnológica e justiça social em uma mesma visão de país. Lula não falou apenas em defesa de seu governo. Expôs um conflito que atravessará as próximas décadas: a disputa entre uma ordem organizada pela coerção das potências e outra fundada na negociação entre Estados soberanos.

Ao final, dirigiu-se aos brasileiros. Advertiu para a associação de setores internos com interesses estrangeiros e afirmou que as eleições de 4 de outubro serão transparentes, competitivas e protegidas por instituições robustas. “A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, disse. “O Brasil continuará sendo um país soberano.”

A coragem desse pronunciamento nasceu também do lugar onde foi feito. Lula estava em Nova York, diante de Trump, falando ao mundo enquanto o Brasil enfrenta uma eleição marcada por pressões externas. Poderia ter adotado a prudência silenciosa que tantas vezes recebe o nome de diplomacia. Preferiu recordar que diplomacia não significa submissão.

A Assembleia Geral viu, nesse dia, duas maneiras de compreender a liderança. Trump exibiu o poder que possui. Lula procurou delimitar o poder que nenhum governante deveria possuir sobre outros povos.

Num mundo novamente seduzido pela força, dizer que nenhum país é dono do planeta pode parecer uma formulação elementar. Transformou-se, no entanto, em uma posição política de risco. Foi esse risco que deu densidade ao discurso brasileiro e fez de sua defesa da soberania uma das intervenções mais necessárias daquela Assembleia.


Íntegra do discurso de Lula | Registro oficial do discurso de Trump na ONU

Análise do discurso do Presidente Lula pelo analista de relações internacionais e professor doutor Leonardo Trevisan:


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM, às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, portal brasilamazoniaagora.com.br

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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