A logística da floresta em tempos de seca


Durante muito tempo, o debate sobre infraestrutura na Amazônia foi conduzido como se estivéssemos obrigados a escolher entre dois riscos: permanecer isolados ou abrir caminhos para a devastação. Essa formulação envelheceu. E envelheceu sobretudo porque o clima começou a alterar as condições materiais sobre as quais organizamos a vida econômica da região.

O Amazonas precisa discutir suas estradas, hidrovias, portos, aeroportos e sistemas de abastecimento considerando uma realidade que já está diante de nós. As estiagens severas deixaram de ser acontecimentos suficientemente raros para serem tratadas apenas como emergência. Em 2024, os efeitos da seca levaram o governo estadual a declarar situação de emergência nos 62 municípios. A redução das vazões atingiu a navegação em rios como Purus, Juruá, Madeira, Solimões e Negro, artérias pelas quais circulam pessoas, alimentos, medicamentos, combustíveis e boa parte da economia amazônica. 

Quando o rio baixa demais, portanto, não estamos diante apenas de um problema ambiental. Temos um problema logístico.

E, quando a logística entra em colapso, rapidamente aparecem outros: encarecimento dos alimentos, dificuldade de circulação de medicamentos, interrupções no transporte de pessoas, comprometimento de cadeias produtivas, pressão sobre a indústria e isolamento de comunidades.

A Defesa Civil do Amazonas já reconheceu formalmente esse encadeamento. Seu planejamento para a estiagem registra que períodos mais longos ou intensos de seca podem dificultar o tráfego de grandes embarcações, afetar o deslocamento de pacientes e prejudicar a comercialização. 

A floresta precisa de infraestrutura

Uma floresta protegida dentro de uma economia desorganizada estará permanentemente submetida às pressões da informalidade, da pobreza e das atividades ilegais.

Por isso, defender infraestrutura para o Amazonas não significa conceder licença para ocupar desordenadamente a floresta. Significa construir capacidade pública para ordenar o território. A BR-319 talvez seja o exemplo mais evidente dessa dificuldade brasileira.

Há uma necessidade legítima de conexão terrestre entre o Amazonas e o restante do país. Há também riscos ambientais legítimos associados à ocupação desordenada ao longo de uma rodovia atravessando uma das áreas florestais mais sensíveis do planeta. Essas duas realidades precisam caber na mesma política pública.

logistica amazonas foto Orlando K Junior

O caminho tecnicamente responsável passa por licenciamento rigoroso, monitoramento permanente do território, presença dos órgãos ambientais, regularização fundiária, controle das vias secundárias, fiscalização contra grilagem e desmatamento, rastreamento da ocupação do entorno, prevenção de incêndios e presença efetiva do Estado antes, durante e depois da execução das obras.

Alguns movimentos recentes mostram que essa arquitetura institucional começa, lentamente, a aparecer. O Ministério dos Transportes criou o MIDAS para organizar e cruzar informações socioambientais dos projetos de infraestrutura. O DNIT também instituiu, no fim de 2025, um sistema estruturado para controlar informações ambientais vinculadas aos seus contratos. 

Na própria BR-319 houve avanço recente: em maio de 2026, o Ibama concedeu licença de instalação para três pontes de concreto sobre os igarapés Santo Antônio, Realidade e Fortaleza, no Trecho do Meio.  São sinais de que infraestrutura e controle ambiental podem avançar dentro do mesmo processo administrativo.

Precisamos de redundância logística

Há outra lição que as estiagens estão nos obrigando a aprender. Um território continental como o Amazonas não deveria depender excessivamente de um único modal.

Durante décadas, confiamos na extraordinária rede hidrográfica amazônica como nossa infraestrutura natural de transporte. Ela continuará sendo a principal vantagem logística regional. Entretanto, a variabilidade hidrológica crescente exige redundância.

Precisamos combinar hidrovias, rodovias, portos adaptados a grandes variações de nível dos rios, aeroportos regionais, terminais intermodais e sistemas de armazenamento.

Precisamos também de dragagem tecnicamente planejada onde for necessária e ambientalmente admissível, sinalização e cartografia hidroviária atualizadas, monitoramento contínuo dos canais navegáveis e previsões hidrológicas capazes de orientar empresas, produtores e governos meses antes dos períodos críticos. Infraestrutura resiliente significa exatamente isso: possuir alternativas quando uma parte do sistema falha.

Essa discussão interessa diretamente ao Polo Industrial de Manaus. Uma economia industrial que movimenta insumos e produtos para mercados nacionais e internacionais precisa incorporar o risco climático ao seu planejamento logístico.

A infraestrutura que o clima exige

O que está em discussão, portanto, já ultrapassou a velha controvérsia sobre construir ou preservar. As secas recentes introduziram uma variável que precisa entrar definitivamente nas planilhas, nos projetos de engenharia, nos licenciamentos ambientais e nas decisões de investimento. A infraestrutura amazônica terá de ser concebida para um território submetido a extremos climáticos mais frequentes e a períodos de navegabilidade cada vez mais difíceis de prever. Isso supõe planejamento de longo prazo. 

Exige conhecer melhor nossos rios, antecipar gargalos, adaptar portos, garantir manutenção permanente das hidrovias, estabelecer rotas alternativas e recuperar conexões terrestres estratégicas sob padrões rigorosos de controle ambiental. Exige também que União e Estado abandonem a administração episódica das estiagens, quando se mobilizam recursos depois que comunidades já estão isoladas e cadeias produtivas começam a sofrer.

A BR-319 ocupa lugar inevitável nessa equação. 

Sua recuperação precisa vir acompanhada de uma estrutura de governança territorial proporcional à importância e à sensibilidade ambiental da rodovia. Monitoramento por satélite, fiscalização permanente, controle fundiário, combate à grilagem, prevenção de incêndios e repressão ao desmatamento ilegal devem integrar o próprio projeto de infraestrutura. O Estado precisa chegar junto com a estrada e permanecer depois dela.

Esse princípio vale também para hidrovias, portos e demais corredores logísticos. Licenciamento ambiental qualificado e segurança logística pertencem ao mesmo planejamento. Quanto melhor conhecermos os impactos, os riscos e o território, maior será nossa capacidade de construir soluções duradouras e ambientalmente responsáveis.

O Amazonas não pode continuar esperando cada vazante 

Já temos as informações com antecedência para gerenciar  sua vulnerabilidade logística. Temos uma economia industrial relevante, uma população espalhada por um território maior que muitos países e milhares de comunidades cuja mobilidade depende diretamente dos rios. O custo da improvisação, nessas circunstâncias, acaba sendo pago por toda a sociedade.

Preservar a floresta continuará sendo uma responsabilidade inegociável. E será cada vez mais necessário demonstrar que somos capazes de protegê-la enquanto organizamos a vida econômica de quem mora aqui.

Talvez seja esse o verdadeiro teste que as próximas estiagens nos reservam: fazer da infraestrutura uma aliada da floresta e da presença do Estado a melhor garantia de que desenvolvimento e conservação possam ocupar, finalmente, o mesmo território.


Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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