Não se trata de uniformidade de pensamento. A Amazônia é plural por natureza. O que se espera é unidade na diversidade de propósitos, em torno de um compromisso comum com o desenvolvimento regional, a geração de oportunidades e a proteção do patrimônio ambiental brasileiro.
A última reunião do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas, CODAM, trouxe notícias que merecem registro. Foram aprovados 36 projetos industriais, com previsão de investimentos superiores a R$ 1,2 bilhão e geração de quase dois mil postos de trabalho. Em um cenário internacional marcado por incertezas geopolíticas, desaceleração econômica e reorganização das cadeias produtivas globais, qualquer resultado dessa magnitude deve ser reconhecido como demonstração de vitalidade econômica.
O Polo Industrial de Manaus segue atraindo investidores
E mais do que isso. Continua ampliando linhas de produção e incorporando novos produtos ao seu portfólio. Trata-se de uma evidência de que a segurança jurídica conquistada após a aprovação da Reforma Tributária, somada à capacidade produtiva instalada ao longo de décadas, continua produzindo confiança empresarial.
Mas os números do CODAM também convidam a uma reflexão mais profunda. Há muito tempo aprendemos que crescimento econômico e desenvolvimento econômico não são exatamente a mesma coisa.
O crescimento aparece nos investimentos, no faturamento e na geração de empregos. O desenvolvimento se manifesta quando esses resultados conseguem alcançar o território amazônico em sua diversidade geográfica, social e econômica.
Quando observamos a lista de projetos aprovados, percebemos avanços relevantes na ampliação de segmentos produtivos. Há sinais positivos em áreas ligadas à tecnologia, equipamentos eletrônicos, mobilidade, soluções energéticas e novos dispositivos industriais. Isso demonstra uma saudável capacidade de adaptação do Polo Industrial às transformações da economia mundial.
A pergunta que acompanha a Amazônia desde a criação da ZFM
Quanto desse dinamismo consegue ultrapassar os limites da capital e alcançar os municípios do interior?
A resposta, infelizmente, ainda é modesta. Não por falta de vontade política ou empresarial. A explicação está nas dificuldades históricas da região. A logística continua cara e complexa. A infraestrutura energética permanece desigual. A conectividade digital avança, mas ainda não alcança o nível necessário para sustentar cadeias produtivas sofisticadas em larga escala. A qualificação profissional segue concentrada nos grandes centros urbanos.
Sinais que merecem atenção
Projetos associados à bioeconomia, ao aproveitamento sustentável da biodiversidade, à industrialização de produtos regionais, à energia limpa e à transformação digital começam a apontar caminhos que podem permitir uma nova etapa da economia amazonense. Ainda são iniciativas pontuais diante da dimensão dos desafios, mas representam algo que a Amazônia necessita há décadas: a construção gradual de uma economia mais distribuída territorialmente.
O CODAM continua cumprindo sua missão histórica
Ou seja, estimular investimentos. Os resultados mais recentes confirmam que a engrenagem continua funcionando e que a confiança dos investidores permanece viva.
Mas seria um equívoco imaginar que os desafios estejam superados. As ameaças ao modelo Zona Franca de Manaus mudam de forma ao longo do tempo, mas raramente desaparecem. Em determinados momentos surgem como propostas legislativas. Em outros, como interpretações equivocadas sobre incentivos fiscais, desconhecimento da realidade amazônica ou tentativas de subordinar o desenvolvimento regional a interesses concentrados nos grandes centros econômicos do país. Por essa razão, os resultados do CODAM devem ser celebrados sem complacência.
A defesa da Zona Franca de Manaus continua sendo uma tarefa permanente. Uma tarefa que exige unidade entre empresários, trabalhadores, universidades, centros de pesquisa, lideranças políticas e instituições públicas. Não se trata de uniformidade de pensamento. A Amazônia é plural por natureza. O que se espera é unidade na diversidade de propósitos, em torno de um compromisso comum com o desenvolvimento regional, a geração de oportunidades e a proteção do patrimônio ambiental brasileiro.
Constituição Federal oferece o fundamento
E as razões mais relevantes dessa convergência, ao reconhecer que o desenvolvimento equilibrado do território nacional constitui um objetivo permanente da República.
Defender a Zona Franca de Manaus é defender esse princípio. É defender empregos formais, arrecadação tributária, pesquisa científica e inovação tecnológica. É defender a floresta em pé por meio da economia legal. Mas é também enfrentar uma das maiores injustiças sociais do país.
Os baixos índices de desenvolvimento humano
Especialmente aqueles indicadores bservados em grande parte dos municípios ribeirinhos da Amazônia continuam a lembrar que a missão ainda está longe de ser concluída. Em muitas localidades, o acesso à renda, à educação, à saúde, à energia e à conectividade permanece aquém do que os brasileiros têm o direito de esperar. Quando se fala em desenvolvimento regional, fala-se, em última análise, sobre pessoas.
O verdadeiro sucesso do Amazonas não será medido apenas pelos bilhões de reais aprovados em investimentos ou pelos indicadores industriais da capital. Será medido pela capacidade de transformar riqueza econômica em qualidade de vida, oportunidades e dignidade para quem vive às margens dos grandes rios amazônicos.
Os números do CODAM indicam que estamos avançando. A história, porém, continua nos convocando a fazer mais.
Nelson é economista, empresário e presidente do SIMMMEM, Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e da CNI e vice-presidente da FIEAM.