Nelson Azevedo é uma das vozes mais respeitadas da indústria amazonense e uma das lideranças empresariais que mais consistentemente defenderam a Zona Franca de Manaus ao longo das últimas décadas. Sua trajetória está associada à luta pela diversificação, adensamento e regionalização da economia do Amazonas, bem como à construção de uma visão de desenvolvimento que concilia competitividade industrial, geração de empregos, integração nacional e conservação ambiental.Observador atento das transformações econômicas do país, Nelson Azevedo tem sido um defensor firme da compreensão da Zona Franca como política de Estado, concebida para reduzir desigualdades regionais, fortalecer a soberania brasileira na Amazônia e criar alternativas econômicas compatíveis com a manutenção da floresta em pé. Em seus posicionamentos públicos, costuma destacar que a prosperidade da Amazônia não se opõe ao desenvolvimento das demais regiões, mas integra uma mesma cadeia de valor capaz de beneficiar toda a economia nacional. É com essa visão que ele analisa os efeitos da Reforma Tributária, a expansão do Polo Industrial de Manaus e as novas oportunidades que surgem para a indústria brasileira a partir da economia da sustentabilidade.
BATE BOLA BAA Com Nelson Azevedo – Empresário e liderança histórica da indústria amazonense
BAA — A reportagem da Folha afirma que a reforma tributária pode aumentar em 30% o número de empresas na Zona Franca de Manaus. O senhor ficou surpreso?
Nelson Azevedo: Não. A reforma trouxe algo que o investidor valoriza muito: previsibilidade. Quando existe segurança jurídica, o capital se movimenta. O que estamos vendo é uma consequência natural desse ambiente de maior confiança.
BAA — Parte do setor industrial paulista vê esse movimento com preocupação. Faz sentido?
Nelson Azevedo: Eu acredito que não. Essa preocupação parte de uma visão incompleta da realidade econômica. São Paulo e Manaus não são adversários. São parceiros dentro da mesma cadeia produtiva nacional.
BAA — O senhor costuma dizer que a Zona Franca compra muito mais de São Paulo do que se imagina.
Nelson Azevedo: Exatamente. Grande parte dos componentes, máquinas, equipamentos, insumos e serviços utilizados pelas indústrias de Manaus vem de São Paulo. Quando uma fábrica cresce aqui, ela aumenta as encomendas para fornecedores paulistas.
BAA — Então o crescimento de Manaus gera negócios para São Paulo?
Nelson Azevedo: Sem dúvida. Os números mostram isso. São Paulo é um dos maiores fornecedores da Zona Franca. Existe uma integração produtiva construída ao longo de décadas. O sucesso de Manaus gera demanda para a indústria paulista.
A falsa disputa
BAA — Há risco de migração em massa de empresas do Sudeste para o Amazonas?
Nelson Azevedo: Não existe fundamento econômico para essa tese. São Paulo possui mais de 170 mil estabelecimentos industriais. O Polo Industrial de Manaus tem cerca de 600 grandes fábricas. Estamos falando de escalas completamente diferentes.
BAA — Então por que essa narrativa continua aparecendo?
Nelson Azevedo: Porque ela é antiga. Desde a criação da Zona Franca existe uma resistência de alguns setores que enxergam qualquer política de desenvolvimento regional como uma ameaça. Mas a experiência de quase sessenta anos mostra justamente o contrário.
A floresta entra na conta
BAA — A discussão costuma ficar restrita aos incentivos fiscais. O que está faltando nesse debate?
Nelson Azevedo: Falta incluir o valor ambiental da Amazônia. O Polo Industrial de Manaus não é apenas um projeto econômico. Ele é também uma estratégia de conservação florestal.
BAA — Como assim?
Nelson Azevedo: Ao gerar emprego urbano e renda industrial, o modelo reduz pressões sobre a floresta. O Amazonas preserva cerca de 97% de sua cobertura vegetal. Isso produz benefícios para todo o Brasil.
BAA — Inclusive para o agronegócio?
O Brasil que ganha
BAA — O que o senhor responderia à Faria Lima quando afirma que a Zona Franca recebe privilégios?
Nelson Azevedo: Eu responderia que a Constituição brasileira reconheceu a necessidade de compensar desigualdades regionais históricas. Não se trata de privilégio. Trata-se de uma política nacional de equilíbrio federativo.
BAA — Qual é o maior equívoco dos críticos da Zona Franca?
Nelson Azevedo: Acreditar que o desenvolvimento da Amazônia acontece às custas de outras regiões. A realidade demonstra o contrário. Quando a Amazônia cresce, o mercado nacional cresce junto.
Pergunta final
BAA — Em uma frase, qual é a principal mensagem dessa nova fase da Zona Franca?
Nelson Azevedo: O Brasil precisa compreender que a Amazônia não é um problema a ser compensado. É uma oportunidade estratégica capaz de gerar indústria, inovação, conservação ambiental e prosperidade compartilhada para toda a Federação.
“São Paulo não perde quando Manaus cresce. São Paulo vende mais, o Brasil arrecada mais e a floresta continua prestando serviços ambientais que sustentam a economia nacional.” — Nelson Azevedo