Por que árvores gigantes não são tão vulneráveis à seca quanto se imaginava

Estudo na Science mostra que árvores gigantes resistem melhor à seca do que se pensava, com mecanismos que ajudam a preservar florestas tropicais. 

Árvores gigantes das florestas tropicais desenvolveram mecanismos internos para transportar água por dezenas de metros, da raiz até as folhas mais altas, uma das maiores limitações físicas das plantas. A conclusão é de um estudo publicado na revista Science, que desafia a ideia de que espécies muito altas seriam naturalmente mais vulneráveis à seca.

Essas árvores podem alcançar alturas equivalentes às de prédios de 20 a 30 andares e desempenham papel central no equilíbrio climático. Apesar de representarem uma pequena parcela da vegetação, 1% das maiores árvores concentra mais da metade do carbono armazenado nas florestas tropicais, além de participarem da formação de chuvas por meio da evapotranspiração.

Durante anos, uma hipótese comum na botânica indicava que o aumento da altura dificultaria o transporte de água. A distância maior entre raízes e copa, somada à ação da gravidade, poderia reduzir a eficiência da fotossíntese, limitar o crescimento e tornar esses indivíduos mais suscetíveis ao estresse hídrico.

O novo trabalho, porém, mostra que o funcionamento das árvores gigantes é mais complexo. Os pesquisadores observaram que, conforme crescem, as árvores gigantes ajustam a estrutura do xilema, tecido responsável pela condução de água e nutrientes. Os conduítes microscópicos ficam maiores, reduzindo a resistência ao fluxo e permitindo que a água alcance os galhos superiores com mais eficiência.

A adaptação funciona como uma compensação hidráulica. Quanto maior a distância a ser vencida, maior a capacidade interna de transporte. Esse ajuste ajuda a evitar falhas no abastecimento das folhas, inclusive em períodos de seca severa.

O estudo também analisou o comportamento das folhas localizadas no topo das árvores. Por causa da gravidade, elas operam com menor disponibilidade de água e poderiam murchar ou fechar os estômatos mais cedo, estruturas microscópicas que regulam as trocas gasosas e influenciam diretamente a fotossíntese. Ainda assim, os indivíduos mais altos demonstraram maior tolerância a essas condições.

Testes realizados em episódios de seca indicaram que as árvores gigantes não apresentaram queda acentuada de crescimento em comparação com árvores menores. O resultado contraria a expectativa de que a altura, por si só, aumentaria o risco de mortalidade diante da falta de água.

Para os autores, a descoberta amplia a compreensão sobre a biologia dessas espécies e ajuda a explicar como elas conseguem manter o crescimento mesmo diante de restrições físicas importantes. O estudo também corrobora a necessidade de conservação, já que esses indivíduos são estratégicos para o ciclo do carbono, a regulação das chuvas e a manutenção da biodiversidade nas florestas tropicais.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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