No Dia Mundial do Meio Ambiente, Augusto César Barreto Rocha analisa as lições da grande seca, os riscos climáticos que continuam sobre a região e a urgência de transformar ciência, infraestrutura e logística em prioridades nacionais.
A proximidade de um novo período de estiagem recoloca a Amazônia diante de uma questão decisiva. Quanto o Brasil realmente conhece a região da qual depende para equilibrar seu clima, sustentar sua biodiversidade e conectar uma parcela expressiva de sua economia?
A seca histórica de 2023 expôs fragilidades conhecidas, mas frequentemente negligenciadas. Rios transformados em gargalos logísticos, comunidades isoladas, aumento dos custos de produção, dificuldades de abastecimento e prejuízos para empresas e famílias revelaram uma vulnerabilidade que vai muito além dos fenômenos naturais.
Nesta entrevista ao Portal Brasil Amazonia Agora realizada pelo editor geral Alfredo Lopes , Augusto César Barreto Rocha defende que a principal resposta para os desafios climáticos da Amazônia não está apenas nas medidas emergenciais, mas na capacidade de produzir conhecimento sobre a dinâmica dos rios, fortalecer a infraestrutura regional e ampliar os investimentos em ciência e tecnologia.
Ao longo da conversa, ele aborda o papel da logística, a importância da integração multimodal, a necessidade de laboratórios permanentes de monitoramento hidrológico, a incorporação dos riscos climáticos pela indústria e os caminhos para transformar a floresta em pé em prosperidade para quem vive na região.
Mais do que um debate sobre clima, a entrevista propõe uma reflexão sobre soberania, desenvolvimento e futuro. Afinal, compreender a Amazônia talvez seja o primeiro passo para que o Brasil consiga construir um projeto nacional à altura de sua maior riqueza territorial.

BrasilAmazoniaAgora – O Dia Mundial do Meio Ambiente chega neste ano sob a expectativa de novos impactos climáticos extremos na Amazônia. Que lições a histórica seca de 2023 deixou para o Amazonas e para o Brasil?
Augusto César Barreto Rocha – A seca histórica de 2023 deixou uma série de lições importantes. A primeira delas é que precisamos ampliar os investimentos em infraestrutura e fortalecer uma produção comprometida com a responsabilidade ambiental.
Ela também evidenciou o custo extremamente elevado que recai sobre a indústria da Zona Franca de Manaus, sobre o comércio e sobre a população amazonense quando não existem condições adequadas para o transporte de mercadorias entre a Amazônia e o restante do país.
Houve avanços importantes na compreensão desse fenômeno. Na última semana, por exemplo, a Suframa promoveu um encontro para discutir perspectivas climáticas para a região. Isso demonstra que a sociedade está buscando entender melhor a dinâmica desses eventos.
Ao mesmo tempo, foi possível perceber que o aprendizado ainda está incompleto. Um dos exemplos é a ausência de garantias orçamentárias para a continuidade, no próximo ano, de iniciativas científicas fundamentais, como o laboratório da Universidade do Estado do Amazonas dedicado às previsões climáticas.
Também sentimos falta de uma estrutura permanente de pesquisa voltada especificamente à hidrologia amazônica e ao estudo dos cursos d’água da região. Sem conhecer profundamente nossos rios, dificilmente conseguiremos transformá-los em hidrovias eficientes e sustentáveis.

BrasilAmazoniaAgora – A logística foi um dos setores mais afetados pela estiagem, com prejuízos para a indústria, o abastecimento e a população. O que mudou na preparação logística da região desde então?
Augusto César Barreto Rocha – A principal mudança foi resultado de um esforço privado liderado pelo Porto Chibatão e pelo Super Terminais para viabilizar estruturas flutuantes de transbordo em Itacoatiara.
Também merece destaque a atuação coordenada entre agentes públicos e privados, que trabalharam juntos para tornar essas operações possíveis durante os períodos mais críticos.
Outro avanço importante foi o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e previsão. O trabalho desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas e os boletins produzidos pelo Serviço Geológico do Brasil vêm oferecendo informações mais qualificadas para a tomada de decisões.
Já as indústrias foram obrigadas a ampliar seus estoques de segurança. Trata-se de uma medida necessária, mas que aumenta significativamente os custos operacionais e reduz a competitividade das empresas instaladas na região.
BrasilAmazoniaAgora – A Amazônia continua dependente dos rios como principal corredor de transporte. O que a experiência recente revelou sobre a vulnerabilidade dessa infraestrutura natural diante das mudanças climáticas?
Augusto César Barreto Rocha – A experiência recente revelou o quanto a Amazônia ainda sofre com a ausência de infraestrutura complementar.
A recuperação da BR-319 representa uma parte importante desse processo de correção histórica. Trata-se de uma demanda antiga da região que começa a avançar.
Sistemas logísticos resilientes dependem da existência de alternativas. Dependem de modais complementares e de redundância operacional. Estamos muito distantes dessa realidade.
BrasilAmazoniaAgora– Em sua avaliação, as medidas emergenciais adotadas durante a última grande seca foram suficientes ou ainda estamos reagindo aos eventos em vez de nos anteciparmos a eles?
Augusto César Barreto Rocha – Continuamos atuando essencialmente no campo das medidas emergenciais.
Ainda não enfrentamos o problema em sua dimensão real. Não construímos soluções permanentes compatíveis com a magnitude dos impactos econômicos, sociais e humanos provocados por eventos dessa natureza.
A seca passa. A vulnerabilidade permanece.
BrasilAmazoniaAgora – Quais investimentos deveriam ser tratados como prioridade nacional para reduzir os impactos econômicos e sociais de futuras estiagens severas na Amazônia?
Augusto César Barreto Rocha – O investimento mais urgente é a criação de um laboratório integrado dedicado à compreensão da dinâmica do Rio Amazonas e de seus afluentes.
Precisamos entender melhor os ciclos de cheias e vazantes, desenvolver mapas hidrológicos mais precisos e construir modelos preditivos capazes de antecipar cenários.
Sem dominar a pesquisa básica relacionada ao funcionamento desses sistemas naturais, não haverá planejamento consistente nem desenvolvimento duradouro.
Enquanto não conhecermos profundamente nossos rios, continuaremos desperdiçando oportunidades extraordinárias de geração de riqueza para a Amazônia, para o Brasil e para a humanidade.

BrasilAmazoniaAgora – O Polo Industrial de Manaus enfrentou desafios inéditos para manter a produção e preservar empregos. Como a indústria da região tem incorporado a gestão de riscos climáticos em seu planejamento estratégico?
Augusto César Barreto Rocha – A gestão de riscos já integra os sistemas modernos de qualidade adotados pelas empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus.
As normas internacionais exigem a identificação, documentação, análise e mitigação de riscos operacionais, incluindo aqueles relacionados a eventos climáticos extremos.
Por essa razão, as empresas vêm incorporando cada vez mais essas variáveis em seus planejamentos estratégicos, operacionais e de qualidade.
BrasilAmazoniaAgora – Existe uma percepção crescente de que a questão ambiental deixou de ser apenas um tema ecológico para se tornar uma questão econômica e de segurança nacional. O senhor concorda com essa leitura?
Augusto César Barreto Rocha – Sem dúvida.
Para empresas globais e organizações de grande porte, a agenda ambiental já possui valor econômico concreto. Para governos comprometidos com a proteção de suas populações e de seus sistemas produtivos, trata-se também de uma questão estratégica e de segurança nacional.
É verdade que essa percepção ainda não alcançou todos os segmentos empresariais e gestores públicos. Entretanto, esse processo tende a avançar à medida que aumentam o acesso ao conhecimento, a educação e a compreensão das oportunidades associadas à sustentabilidade.
BrasilAmazoniaAgora – Que mensagem a experiência amazônica com secas, cheias extremas e desafios logísticos pode oferecer ao debate internacional sobre adaptação climática?
Augusto César Barreto Rocha – A principal mensagem é simples. Precisamos aprender a conviver com a natureza e a compreendê-la melhor.
Precisamos de respeito pelos processos naturais e de investimentos contínuos em ciência, tecnologia e pesquisa básica.A natureza é dinâmica e muitas vezes imprevisível. Justamente por isso o conhecimento científico é indispensável.
BrasilAmazoniaAgora – Muitos especialistas defendem que a floresta em pé é parte essencial da solução climática global. Como transformar essa premissa em oportunidades concretas de desenvolvimento, emprego e renda para a população amazônica?
Augusto César Barreto Rocha – Esse compromisso pertence a toda a sociedade. Precisamos escolher conscientemente a prosperidade amazônica.
A destruição da floresta não interessa aos amazônidas. O desenvolvimento surgirá quando ouvirmos as comunidades locais e construirmos alternativas capazes de ampliar a geração de riqueza e oportunidades.
O extrativismo predatório não produz riqueza duradoura. Ao contrário, destrói patrimônio natural, reduz oportunidades futuras e compromete a capacidade de desenvolvimento das próximas gerações.

BrasilAmazoniaAgora – Diante dos desafios ambientais, logísticos e econômicos que se acumulam na região, qual deveria ser o grande pacto nacional em torno da Amazônia para os próximos anos?
Augusto César Barreto Rocha – O grande pacto nacional passa pela construção de infraestrutura sustentável para o interior profundo da Amazônia e por sua integração efetiva ao restante do país.
Precisamos ampliar conexões logísticas, recuperar estradas estratégicas, reduzir os custos do transporte aéreo e estruturar terminais portuários públicos de pequeno porte capazes de atender às vocações econômicas de cada município.
O projeto amazônico só fará sentido quando os benefícios dos investimentos realizados na região alcançarem efetivamente quem vive nela. A Amazônia não pode ser apenas uma pauta nacional. Ela precisa se tornar uma prioridade nacional.
“Enquanto não conhecermos profundamente nossos rios, continuaremos desperdiçando oportunidades extraordinárias de geração de riqueza para a Amazônia, para o Brasil e para a humanidade.” ACBR

