A crise climática já afeta renda, alimentos, energia e infraestrutura no Brasil, mas políticas de adaptação e redução de CO₂ ainda avançam lentamente.
O avanço dos eventos extremos no Brasil tem exposto um desafio que vai além da resposta emergencial a enchentes, secas e ondas de calor. Dados recentes indicam que o país ainda não está plenamente preparado para lidar com a crise climática, tanto do ponto de vista da informação pública quanto da gestão orçamentária e da prevenção de desastres.
Em 2026, diante da possibilidade de um novo período marcado por forte El Niño, o debate climático ganha ainda mais relevância. O tema também atravessa o cenário eleitoral, já que a escolha de lideranças poderá influenciar a capacidade de União, estados e municípios de planejar ações de curto, médio e longo prazo para adaptação, mitigação e redução de riscos.
Apesar de os impactos já fazerem parte da rotina de milhões de brasileiros, a compreensão sobre suas causas ainda é desigual. Apenas 6 em cada 10 pessoas reconhecem a relação entre as mudanças climáticas e a ação humana. Ao mesmo tempo, 9 em cada 10 afirmam já ter sentido algum efeito associado ao clima em sua região, como chuvas intensas, calor extremo, aumento no preço dos alimentos ou encarecimento da energia elétrica.
A diferença entre percepção dos impactos e entendimento das causas revela um quadro de desinformação climática. Na prática, a população já convive com as consequências da crise climática, mas nem sempre identifica sua origem ou compreende o papel das políticas públicas e das escolhas individuais no enfrentamento do problema.
O custo econômico também é elevado. Estudos do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF), de 2026, estimam que o Brasil perde mais de R$ 110 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) por ano em razão de desastres climáticos. O valor equivale a recursos que poderiam ser destinados a áreas como saúde, educação, infraestrutura e transporte.
Outro dado reforça a fragilidade da preparação nacional. Em 2024, os gastos emergenciais para responder a desastres, como a inundação da bacia do Rio Guaíba, no Rio Grande do Sul, foram quase dez vezes maiores do que os investimentos em prevenção e preparação. O padrão mostra que o país ainda atua mais na recuperação dos danos do que na redução dos riscos.
Embora o gasto climático do Governo Federal tenha crescido nos últimos dois anos, ele correspondeu a apenas 1% do orçamento total. Para especialistas, a adaptação à nova realidade climática exige rever prioridades de gestão e ampliar a integração do tema nos investimentos públicos.
A preocupação da sociedade existe, mas nem sempre se traduz em ação. Três em cada quatro brasileiros dizem estar preocupados com as mudanças climáticas, mas 43% afirmam não ter mudado nenhum hábito nos últimos doze meses. As mudanças poderiam incluir desde economia de água e energia até separação de resíduos e maior atenção às propostas ambientais de candidatos.
No campo político, o tema ainda tem peso limitado. Apenas 35% dos entrevistados afirmam já ter escolhido algum candidato em razão de propostas voltadas à defesa do meio ambiente, embora 89% reconheçam as mudanças climáticas como uma ameaça real à vida no país. Em um contexto de eventos extremos mais frequentes e intensos, a crise climática deixou de ser um tema distante.

