“Entre a ciência e a incerteza, os sinais de que a floresta pode estar deixando de ser aliada do clima exigem mais do que medições, exigem na verdade discernimento político.”
Coluna Follow-Up
Niro Higuchi fala da Amazônia como quem a mede há décadas, árvore por árvore, parcela por parcela, estação após estação.
Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) há mais de 40 anos, ele está entre os nomes que ajudaram a construir o entendimento científico sobre a dinâmica do carbono na floresta tropical. Seu trabalho integra uma geração que transformou a Amazônia de paisagem em sistema mensurável – e, ao mesmo tempo, revelou o quanto ainda escapa às medições.
Ao longo de sua trajetória, Higuchi acompanhou a passagem silenciosa de uma floresta vista como reserva inesgotável para um sistema sob pressão crescente. Seus estudos sobre biomassa, crescimento e mortalidade de árvores ajudaram a sustentar uma das perguntas mais delicadas do nosso tempo: até quando a Amazônia continuará prestando os serviços ambientais que o mundo tomou como garantidos?
É a partir desse acúmulo que ele responde, com precisão e cautela, às questões que hoje atravessam o debate climático.
Confira:

Alfredo Lopes – Professor, a partir de quando a ciência começou a entender a Amazônia como peça-chave no equilíbrio do carbono global?
Niro Higuchi – A compreensão mais robusta surge quando a ciência passa a integrar diferentes sistemas de observação. Inventários florestais de longo prazo, medições atmosféricas, torres de fluxo e sensoriamento remoto começam a conversar entre si. A partir daí, a Amazônia deixa de ser vista apenas como um reservatório de biodiversidade e passa a ser entendida como um sistema ativo no ciclo global do carbono. Mais recentemente, essa mesma ciência começa a identificar sinais de enfraquecimento dessa função em partes da floresta, o que muda o tom do debate.
AL – O que ainda surpreende a comunidade científica quando se mede, de fato, o carbono armazenado na floresta amazônica?
Niro Higuchi – A heterogeneidade. A Amazônia não é uma unidade homogênea. O estoque de carbono varia com solo, relevo, regime de chuvas, composição de espécies e histórico de perturbação. Pequenas diferenças metodológicas podem gerar variações relevantes nas estimativas. Medir carbono na floresta é, na prática, um exercício de integração entre botânica, estatística e tecnologia. Ainda há surpresas porque ainda estamos refinando essa integração.
AL – Em termos simples, como funciona o “vai e vem” do carbono dentro da floresta?
Niro Higuchi – A floresta captura carbono da atmosfera por meio da fotossíntese e o transforma em biomassa. Esse carbono circula entre troncos, folhas, raízes e solo. Ao mesmo tempo, ele retorna à atmosfera pela respiração das plantas, pela decomposição da matéria orgânica e por distúrbios como incêndios. O balanço entre entrada e saída define se a floresta está funcionando como sumidouro ou como fonte.
Antes de qualquer debate climático, existe o fato silencioso de que a floresta trabalha. Captura carbono, incorpora matéria, sustenta o invisível. O que se vê acima do solo é apenas parte de um sistema que se estende para baixo, onde o carbono também se acumula e se estabiliza.
AL – A Amazônia ainda está absorvendo mais carbono do que emite ou esse papel já está mudando?
Niro Higuchi – Depende da região. Áreas mais preservadas ainda mantêm capacidade de absorção. No entanto, regiões sob maior pressão, especialmente no sudeste da Amazônia, já apresentam sinais consistentes de emissão líquida. O que se observa não é uma virada uniforme, mas um mosaico de comportamentos que reflete o nível de conservação e o impacto das mudanças climáticas.
AL – O que mais pesa hoje nesse equilíbrio: o desmatamento, o clima ou a própria dinâmica natural da floresta?
Niro Higuchi – O fator decisivo hoje é a interação entre eles. O desmatamento reduz estoque e abre espaço para o fogo. O clima, mais quente e seco, aumenta o estresse das árvores. A dinâmica natural continua operando, mas sob novas condições. O resultado é um sistema mais vulnerável, em que os impactos deixam de ser isolados e passam a se reforçar mutuamente.
A Amazônia não é estática. É um sistema em movimento contínuo, onde crescimento, morte e decomposição se equilibram. O carbono circula entre vida e matéria orgânica, num ciclo que depende de estabilidade para se manter funcional.
AL – Até que ponto o aumento de CO₂ na atmosfera ajuda ou prejudica o crescimento da floresta?
Niro Higuchi – Existe um efeito de estímulo ao crescimento, conhecido como fertilização por CO₂. Em condições ideais, mais CO₂ pode significar maior taxa de fotossíntese. O problema é que esse efeito depende de água, nutrientes e estabilidade climática. Em um ambiente mais quente e com secas mais frequentes, o ganho pode ser compensado por aumento da mortalidade. A resposta da floresta não é linear.

AL – Existe um risco real de a Amazônia perder sua capacidade de regular o clima? Estamos próximos desse limite?
Niro Higuchi – O risco existe e está sendo quantificado em termos probabilísticos, não como um ponto fixo no tempo. O que a ciência indica é um aumento da vulnerabilidade. Partes da floresta já operam próximas de limites ecológicos, especialmente onde há combinação de desmatamento e eventos climáticos extremos. Não se trata de um colapso súbito, mas de uma transição gradual com efeitos acumulativos.
Quando o equilíbrio se rompe, o fluxo se inverte. O que antes era captura passa a ser emissão. O que era estoque se transforma em perda. Não se trata apenas de floresta degradada, mas de um sistema que começa a operar em outra lógica.
AL – O quanto a ciência já consegue medir com precisão e onde ainda estamos trabalhando com grandes incertezas?
Niro Higuchi – Avançamos muito na medição da biomassa acima do solo e na dinâmica de crescimento das árvores. Ainda há incertezas importantes no carbono do solo, nas raízes, nos efeitos de degradação florestal e nas respostas a eventos extremos. A precisão aumenta quando diferentes métodos são combinados. Nenhuma ferramenta isolada dá conta da complexidade amazônica.
AL – Por que a Amazônia não pode ser analisada apenas pelo carbono, como às vezes acontece no debate público?
Niro Higuchi – Porque o carbono é apenas uma das dimensões de um sistema muito mais amplo. A Amazônia regula o ciclo da água, abriga uma biodiversidade única, sustenta modos de vida e guarda conhecimento acumulado ao longo de séculos. Reduzir a floresta ao carbono empobrece a compreensão e pode levar a decisões equivocadas.
AL – Depois de décadas estudando a floresta, qual é o principal alerta que você considera que ainda não está sendo devidamente compreendido?
Niro Higuchi – A ideia de limite. A floresta é resiliente, mas essa resiliência não é infinita. O acúmulo de pressões altera o funcionamento do sistema. Quando certos limiares são ultrapassados, a recuperação deixa de ser garantida. O alerta central é que a estabilidade da Amazônia não pode ser presumida. Ela depende de escolhas concretas no presente
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br.


