“Durante décadas, o mundo operou sob uma lógica imperfeita, mas funcional. Havia liderança, havia regras e havia espaços de negociação. O multilateralismo não eliminava conflitos, mas os organizava. Criava previsibilidade. Estabelecia limites. Donald Trump descartou essa lógica e abriu caminho para a desordem”.
Os avanços ou retrocessos da história nem sempre se dão por ruptura externa, mas por deslocamento interno. Os Estados Unidos atravessam um desses momentos. E todos estamos sobressaltados.
A questão já não é apenas Donald Trump, suas decisões ou seu estilo de poder. O que se observa é uma inflexão mais profunda. Um país que ajudou a estruturar a ordem internacional moderna começa a se afastar das bases que lhe deram centralidade.
Ao sair do Acordo de Paris, reduzir seu engajamento em organismos como a OMS e a OMC e esvaziar sua presença em fóruns como a COP30, Washington não apenas se descola de agendas específicas. Reposiciona-se diante do próprio sistema de um país que anunciou ser MAGA e se transformou numa megalópoles em protesto.
Esse movimento tem implicações que vão além da diplomacia tradicional. Ele atinge o núcleo da coordenação global.
No século XX, após duas guerras globais, o mundo ainda busca seu eixo na expectativa de um equilíbrio pacífico que se move aos solavancos. Um movimento imperfeito onde as instituições ajudam a evoluir no diapasão do multilateralismo diplomático. Avançamos na tecnologia mas tropeçamos na cidadania que padece a distribuição capenga das oportunidades e direitos.
Esse arranjo agora se desestabiliza.
Mas o ponto central não é simplesmente a perda de uma liderança. É o fato de que o mundo já não comporta mais uma liderança concentrada nos moldes do pós-guerra. O que está em curso é uma transição ainda incompleta para um modelo de liderança compartilhada.
E é justamente aí que reside o problema.
A liderança compartilhada não surge automaticamente quando uma potência recua. Ela exige coordenação, densidade institucional e disposição política para construir consensos entre atores distintos. Sem isso, o que emerge não é compartilhamento, mas fragmentação.
O sistema internacional começa, então, a operar em múltiplas frequências.
A União Europeia tenta sustentar protagonismo climático, mas enfrenta limitações internas. A China amplia sua presença global com pragmatismo estratégico. Blocos como os BRICS buscam reequilibrar o eixo de poder, ainda que carreguem assimetrias relevantes.
O resultado não é um novo centro. É um mosaico.
E nesse mosaico, a ausência de um articulador consistente pesa mais do que a presença de múltiplos protagonistas.
É nesse contexto que a Amazônia deixa de ser apenas um tema ambiental e passa a ocupar uma posição geopolítica central.
A floresta depende de uma engrenagem internacional sofisticada. Financiamento climático, mercados de carbono, compromissos de descarbonização, padrões ESG e pressão diplomática coordenada. Tudo isso requer alinhamento entre Estados, instituições e mercado.
Quando os Estados Unidos se afastam, essa engrenagem perde coesão.
A ausência na COP30, realizada em Belém, simboliza mais do que um gesto diplomático. Representa a retirada de um vetor histórico de articulação em um momento em que a governança climática exige maior, e não menor, densidade política.
Em um cenário de liderança compartilhada estruturada, a Amazônia poderia se beneficiar. Diversificação de parceiros, ampliação de fontes de financiamento, maior autonomia estratégica do Brasil, valorização de ativos ambientais em diferentes mercados.
Mas não é esse o cenário consolidado.
O que se observa é uma transição desordenada, na qual compromissos são relativizados, padrões são tensionados e interesses imediatos ganham espaço sobre estratégias de longo prazo.
Nesse ambiente, a floresta fica mais exposta.
Projetos de bioeconomia tornam-se mais vulneráveis. Investimentos em conservação perdem previsibilidade. A pressão internacional por redução do desmatamento oscila. E a narrativa da sustentabilidade como vantagem competitiva enfrenta um ambiente menos favorável.
Há, ainda, uma dimensão mais sensível, que atravessa o campo democrático.
Os Estados Unidos sempre exerceram influência não apenas por seu poder econômico ou militar, mas por sua institucionalidade. A ideia de que regras funcionam, mesmo sob tensão, foi um dos pilares de sua legitimidade global.
Quando essa referência se fragiliza, o efeito se irradia.
Movimentos recentes de aproximação e sinalização política em relação ao Brasil, com indícios de tentativa de interferência no ambiente político-eleitoral, indicam uma mudança qualitativa. A política externa passa a operar menos por instituições e mais por alinhamentos diretos.
É nesse ponto que a lógica do poder pessoal ganha espaço sobre a lógica republicana.
A ideia de que o Estado se confunde com a vontade do líder deixa de ser uma figura de linguagem histórica e passa a encontrar ressonância no presente.
Quando isso ocorre, o impacto não se limita ao país de origem.
Outras democracias passam a conviver com pressões externas mais explícitas. A soberania torna-se mais permeável. E o próprio conceito de democracia se desloca, deixando de ser um método institucional para se tornar campo de disputa permanente.
O resultado desse processo não é imediato, mas cumulativo.
Perdem os Estados Unidos, que deixam de exercer liderança articuladora e passam a operar de forma mais isolada. Perde a diplomacia, substituída por relações mais transacionais. Perde o multilateralismo, esvaziado em sua capacidade de coordenação.
Perde o clima, diante da fragmentação das respostas globais. Perde a agenda ESG, que depende de sinalização política consistente para orientar decisões de investimento.
Perde a democracia, tensionada por dentro e pressionada por fora. E perde, sobretudo, a possibilidade de construção de uma ordem internacional baseada em cooperação.
Os Estados Unidos não estão apenas se retirando de acordos. Estão se afastando de um papel histórico que ajudaram a construir. Estão se retirando de si mesmos. E o mundo que emerge dessa retirada ainda não encontrou sua forma e eixo à luz da desestruturação institucional diplomática, civilizacional em curso.
Entre a liderança que se dissolve e o compartilhamento que ainda não se organiza, abre-se um intervalo de incerteza.
É nesse intervalo que se concentram os maiores riscos. E também, paradoxalmente, as maiores responsabilidades. Para países como o Brasil, esse não é apenas um momento de reação. É um momento de definição.
A Amazônia, nesse cenário, deixa de ser periferia e assume condição de eixo. Não apenas ambiental, mas político, econômico e civilizatório. O desafio já não é escolher entre liderar ou seguir.
É saber se o país será capaz de operar em um mundo onde liderar significa, antes de tudo, construir saídas, ou sucumbir ao caos.