Petrolíferas recuam no discurso climático e reforçam dependência global de combustíveis fósseis

Campanhas de grandes empresas reconfiguram discurso público e associam combustíveis fósseis à estabilidade econômica, levantando alertas sobre riscos ambientais e atraso em soluções sustentáveis.

As maiores empresas de petróleo e gás do mundo vêm reformulando sua comunicação pública e reduzindo a ênfase em compromissos climáticos, ao mesmo tempo em que reforçam a ideia de que a sociedade permanece dependente de combustíveis fósseis. A mudança de narrativa foi identificada em um estudo da Clean Creatives, que analisou quase 1,9 mil peças de campanhas publicitárias e institucionais entre 2020 e 2024.

Segundo a pesquisa, companhias como BP, Chevron, ExxonMobil e Shell abandonaram gradualmente o discurso de liderança na transição energética adotado após o Acordo de Paris. Em seu lugar, passaram a destacar a importância do petróleo e do gás para a segurança energética e o funcionamento da economia global, reforçando a centralidade dos combustíveis fósseis nesse processo.

A análise aponta uma evolução clara dessa comunicação ao longo dos anos. Em 2021, as campanhas enfatizavam compromissos climáticos; em 2022, o foco migrou para segurança energética; em 2023, surgiu um discurso híbrido, combinando expansão de fósseis com redução de emissões; e, em 2024, consolidou-se a narrativa de dependência desses recursos.

Além da mudança de tom, o estudo identifica o uso crescente de soluções consideradas controversas ou limitadas, como o gás natural e tecnologias de captura e armazenamento de carbono. Essas alternativas são frequentemente apresentadas como sustentáveis, embora ainda estejam associadas a combustíveis fósseis ou enfrentem desafios de escala.

Petrolíferas recuam no discurso climático e reforçam dependência global de combustíveis fósseis
Foto: Travis Leery/Unsplash

A estratégia, segundo os pesquisadores, também inclui a construção de mensagens que associam a continuidade da exploração de petróleo e gás à estabilidade econômica e à proteção de empregos. Em alguns casos, campanhas recorrem ao argumento de risco para reforçar a ideia de que a transição energética não pode ocorrer de forma acelerada.

Apesar de global, a mudança de narrativa é mais evidente nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em outras regiões, como Ásia e Oriente Médio, predominam campanhas institucionais mais tradicionais, com foco em reputação e valores corporativos.

O reposicionamento das petrolíferas ocorre em um contexto de agravamento da crise climática. Dados recentes indicam que a última década foi a mais quente já registrada, com sucessivos recordes de temperatura e aquecimento contínuo dos oceanos.

Para o relatório, o contraste entre os lucros recordes do setor e o recuo nas metas ambientais evidencia um desalinhamento entre interesses econômicos e a urgência climática. A tendência, alertam os pesquisadores, pode retardar a transição energética global e ampliar riscos ambientais, sociais e econômicos nos próximos anos.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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