Cerrado: ativo estratégico para água, energia e clima que o próprio Brasil está destruindo

O Cerrado é o maior bioma savânico da América do Sul, ocupando cerca de 2 milhões de km², aproximadamente 24% do território brasileiro, com extensões que alcançam Bolívia e Paraguai. Reconhecido como a savana mais biodiversa do planeta, o bioma funciona como elo ecológico entre Amazônia, Caatinga, Pantanal e Mata Atlântica, formando vastas zonas de transição que ampliam a diversidade biológica e climática.

Chamado de “Coração das Águas” ou “Pai das Águas”, o Cerrado abriga nascentes que alimentam oito das doze principais bacias hidrográficas do país, incluindo sistemas que drenam para as bacias Amazônica e do Tocantins, São Francisco e Prata. Essa posição estratégica sustenta o abastecimento hídrico, a irrigação agrícola e parte significativa da geração hidrelétrica nacional.

Foto aérea da bacia do rio São Francisco, com áreas de Cerrado e cursos d’água que abastecem importantes regiões do Brasil.
A bacia do rio São Francisco depende das nascentes do Cerrado, bioma estratégico para a segurança hídrica e energética do país. Foto: Agência Eixos.

Certezas e incertezas sobre a biodiversidade no Cerrado

O bioma concentra cerca de 5% da biodiversidade global e aproximadamente 30% das espécies brasileiras. Estimam-se 12 mil espécies de plantas vasculares, um terço delas endêmicas. A fauna também é expressiva: cerca de 200 espécies de mamíferos, mais de 850 aves, 262 répteis e mais de 200 anfíbios, além de aproximadamente 1.200 espécies de peixes distribuídas em bacias que nascem no planalto central.

Entre os mamíferos emblemáticos estão o Lobo-guará, a Onça-pintada e o Tamanduá-bandeira. Na avifauna, destaca-se o criticamente ameaçado Pato-mergulhão, dependente de rios limpos e bem conservados.

Imagem de lobo-guará em área de Cerrado, com pelagem alaranjada e pernas longas típicas da espécie.
Símbolo do Cerrado, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) não pertence ao gênero Canis nem é próximo das raposas (Vulpes). É o único integrante do gênero Chrysocyon e uma das espécies mais emblemáticas do bioma. Foto: Adriano Gambarini.

A paisagem não é uniforme. O Cerrado reúne um mosaico de formações campestres, savânicas e florestais — como campos limpos, cerrado sensu stricto, cerradão e matas de galeria — moldadas por solo, disponibilidade de água e regime natural de fogo.

Os solos do bioma são em geral ácidos e pobres em nutrientes, favorecendo adaptações singulares como troncos tortuosos, cascas espessas e raízes profundas. Até 70% da biomassa vegetal do Cerrado se encontra abaixo do solo, o que leva pesquisadores a descrevê-lo como uma “floresta invertida”.

Árvore com tronco retorcido em área de Cerrado, típica das formações savânicas adaptadas a solos ácidos e ao fogo.
Troncos retorcidos e cascas espessas são características marcantes da vegetação do Cerrado, resultado de adaptações evolutivas ao solo pobre, à seca e aos incêndios naturais. Foto: Educação na mão.

Apesar desse avanço científico, persistem lacunas relevantes. A produção acadêmica concentra-se em poucas regiões, como o Distrito Federal, enquanto áreas do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) permanecem pouco conhecidas. As plantas dominam a maioria dos estudos, ao passo que pesquisas sobre microrganismos, fungos e insetos ainda são escassas.

A conversão do solo para monoculturas reduz drasticamente a biodiversidade, especialmente a microbiana; inclusive com perdas significativas de fungos. O ritmo agressivo de avanço econômico sobre o bioma provoca o desaparecimento de diversas espécies antes mesmo de serem descritas pela ciência.

Uma perda que se acelera

Desde a década de 1980, a conversão do Cerrado para agricultura e pecuária avançou de forma acelerada. Dados do MapBiomas indicam que, entre 1985 e 2024, cerca de 40 milhões de hectares de vegetação nativa foram suprimidos, uma redução próxima de 28%. Considerando décadas anteriores, estima-se que quase metade da cobertura original já tenha sido transformada pela ação humana.

A expansão agrícola é expressiva, áreas de culturas temporárias cresceram mais de 500% desde os anos 1980, impulsionadas sobretudo por soja, milho e algodão. A região do Matopiba concentra atualmente a maior parcela do desmatamento recente, estando entre os cinco maiores desmatadores nacionais de vegetação nativa em todos os biomas. 

Embora o sistema PRODES tenha apontado desaceleração da área desmatada em 2025 em comparação ao período anterior, o Cerrado ainda apresenta taxas de desmatamento superiores às da Amazônia.

Foto aérea de desmatamento no Cerrado, com áreas de vegetação nativa suprimidas e avanço de lavouras.
Imagem aérea mostra desmatamento no Cerrado e a conversão da vegetação nativa em áreas agrícolas, um dos principais vetores de pressão sobre o bioma. Foto: Adriano Gambarini/WWF Brasil

Água, energia e clima: os serviços ecossistêmicos do bioma

O Cerrado desempenha papel essencial na regulação hídrica continental, sendo também chamado de “caixa d’água do Brasil”. As raízes profundas do bioma facilitam a infiltração da água da chuva e a recarga de aquíferos que abastecem milhões de pessoas e garantem a operação de hidrelétricas responsáveis por grande parte da eletricidade brasileira.

Mais de 90% da produção hídrica do rio São Francisco e 70% das bacias do Araguaia-Tocantins e do Paraná-Paraguai dependem da água originada no Cerrado. Dentre as principais usinas hidrelétricas que dependem das águas do Cerrado estão a usina de Furnas e a usina de Tucuruí. 

Estudos indicam que a maioria das bacias com nascentes no Cerrado apresenta redução de vazão associada à perda de vegetação nativa. Isso ocorre porque a substituição por pastagens e lavouras altera o microclima, eleva as temperaturas locais e reduz a umidade.

No campo climático, embora não possua a mesma densidade de carbono por hectare das florestas tropicais úmidas, o bioma armazena grandes volumes de carbono subterrâneo, estimados em bilhões de toneladas. A conversão dessas áreas para agropecuária libera emissões significativas de gases de efeito estufa, comprometendo a mitigação das mudanças climáticas. 

Imagem aérea da Usina de Furnas, abastecida por rios que nascem no Cerrado brasileiro.
A Usina de Furnas depende das águas originadas no Cerrado, bioma estratégico para a segurança hídrica e energética do Brasil. Foto: Divulgação/Eletrobras Furnas

A integração ecológica entre o Cerrado e a Amazônia 

A dinâmica climática sul-americana conecta diretamente o Cerrado à Amazônia por meio dos chamados “rios voadores”. Por isso, alterações no regime amazônico impactam o início e a intensidade das chuvas no Cerrado, além do impacto no ecossistema, essas mudanças também afetam calendários agrícolas e produtividade.

Nas áreas de transição entre Cerrado e Amazônia é possível mensurar os impactos do desmatamento. Nas regiões onde o fogo é controlado e a vegetação permanece protegida, espécies típicas de floresta avançam e tornam o ambiente mais denso. 

Já nas áreas degradadas pelo desmatamento e por incêndios frequentes, acontece o movimento inverso: a floresta perde árvores, a umidade diminui e o ambiente passa a assumir características mais secas e abertas, semelhantes às de uma savana. Esse processo, chamado de savanização, indica a transformação gradual de uma área originalmente florestal em um ecossistema mais escasso e vulnerável ao fogo.

Disparidades legais e riscos futuros

A conservação do Cerrado não se opõe ao desenvolvimento econômico. Estudos do Banco Mundial indicam que a manutenção dos serviços ecossistêmicos — como estabilidade climática, polinização e regulação hídrica — pode agregar bilhões de dólares ao PIB brasileiro até 2030.

O bioma reúne espécies emblemáticas que sustentam cadeias da bioeconomia, como o pequi (Caryocar brasiliense) e o buriti (Mauritia flexuosa), responsáveis por movimentar atividades ligadas à alimentação, à extração de óleos e ao desenvolvimento de produtos com maior valor agregado, gerando renda para comunidades locais. Destaca-se também o capim-dourado (Syngonanthus nitens), encontrado nas veredas do Jalapão, matéria-prima de um artesanato sustentável reconhecido internacionalmente.

Imagem de pequi do Cerrado, fruto típico de casca verde e polpa amarela intensa.
O pequi (Caryocar brasiliense) é uma das espécies mais emblemáticas do Cerrado, base de cadeias da bioeconomia que geram renda e valorizam saberes tradicionais. Foto: Fábio Salles/ Adobe Stock

A produção agrícola, a geração de energia e a própria continuidade dessas espécies, que impulsionam o desenvolvimento sustentável no país, dependem da integridade ecológica do Cerrado e da manutenção de seus lençóis freáticos, progressivamente pressionados pela expansão agropecuária e por outras formas de degradação ambiental.

Ainda assim, o Cerrado possui proteção legal bastante restrita. Diferente da Amazônia, onde o Código Florestal determina a manutenção de até 80% de vegetação nativa nas propriedades situadas na Amazônia Legal, no Cerrado a exigência é de 20%. Historicamente tratado como principal fronteira de expansão agropecuária do país, o Cerrado teve a formulação de políticas de conservação fragilizada e registra menor proporção de unidades de conservação quando comparado a outros biomas brasileiros.

Imagem de fogo e desmatamento no Cerrado, com queimada ativa e áreas convertidas para expansão agrícola.
Fogo e desmatamento no Cerrado evidenciam o avanço da fronteira agrícola sobre o bioma, intensificando a perda de vegetação nativa e pressionando água, biodiversidade e clima. Foto: Joel Silva.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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