Cadeias produtivas locais mais densas. Arranjos regionais com lógica econômica. Parcerias que transformem conhecimento em produção, e produção em desenvolvimento territorial.
O ano de 2025 foi, sem exagero, o melhor da história recente do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas. Recordes de projetos aprovados, volume expressivo de investimentos, recuperação e expansão do emprego industrial, diversificação setorial crescente. O Polo Industrial de Manaus mostrou, mais uma vez, sua resiliência e sua capacidade de adaptação.
A pergunta que se impõe, em 2026, já não é se o modelo funciona. Essa resposta os números deram. A pergunta agora é outra, mais exigente e mais madura: o Polo Industrial de Manaus está pronto para o mundo que vem?
O que os dados já estão dizendo
A pauta da 318ª Reunião do CODAM, deste fevereiro de 2026, funciona como um verdadeiro raio-X do estágio atual do Polo. São mais de 60 projetos analisados em uma única reunião, com uma diversidade setorial inédita e, sobretudo, com uma presença crescente de bens intermediários, e não apenas de bens finais. Isso não é detalhe técnico. É sinal de adensamento produtivo em curso.
Em 2025, o CODAM aprovou cerca de 320 projetos, somando aproximadamente R$ 8 bilhões em investimentos projetados. Trata-se de uma base real, concreta, que oferece às empresas do Polo algo raro no cenário brasileiro: tempo, capital e previsibilidade para decidir estrategicamente.
A diversificação já começou.
Está nos projetos de alimentos industrializados, embalagens, química fina, eletroeletrônicos, bioinsumos, automação industrial, fibras sintéticas, motores elétricos, bicicletas elétricas, semicondutores, sistemas de rastreamento, medição inteligente. O problema, portanto, não é a ausência de diversificação. O problema é que ela ainda ocorre de forma reativa, fragmentada, sem uma lógica sistêmica que conecte decisões empresariais individuais a um projeto coletivo de futuro.
A interiorização, por sua vez, aparece como exceção, não como política.
Projetos pontuais em municípios como Carauari, Humaitá e Iranduba demonstram que é possível levar atividade industrial para além do eixo urbano de Manaus. Mas ainda não se trata de uma estratégia estruturada de desenvolvimento territorial.
A conclusão técnica é clara: o Polo já possui massa crítica, capital, tecnologia e mão de obra qualificada. O que falta não é capacidade. O que falta é decisão coletiva e direção estratégica.
O que podemos fazer
Os dados demonstram que o Polo Industrial de Manaus já pode dar um passo além da simples defesa do modelo. Podemos, de forma objetiva, revisar as cadeias produtivas atuais e identificar gargalos estruturais de importação. Podemos avançar na produção local de bens intermediários, componentes, insumos químicos, soluções de automação, bioinsumos e alimentos industrializados com maior valor agregado.
Podemos, sobretudo, integrar a indústria tradicional à bioeconomia aplicada — sem romantismo, sem retórica vazia, com lógica econômica, escala, tecnologia e rastreabilidade. A bioeconomia que interessa ao Polo não é discurso. É aquela que entra na cadeia produtiva, reduz custos, gera novos mercados e amplia competitividade.
Os exemplos já estão sobre a mesa do CODAM.
Embalagens, fibras, químicos, alimentos, motores elétricos, semicondutores, medidores inteligentes. Não como uma lista dispersa de projetos, mas como sintomas de um potencial muito maior, ainda subexplorado.
O que devemos fazer
Se o que podemos fazer está dado pelos números, o que devemos fazer é uma decisão política e empresarial.
Devemos adensar para reduzir a vulnerabilidade externa do modelo, diminuindo dependências críticas e ampliando o conteúdo local com inteligência econômica. Devemos diversificar para sobreviver às transições tecnológicas em curso, que não esperam consensos tardios nem proteções eternas. Devemos interiorizar para conferir legitimidade social, territorial e política ao Polo Industrial de Manaus, conectando-o de forma mais orgânica ao desenvolvimento do Amazonas como um todo.
Um Polo concentrado apenas em Manaus é eficiente.
Um Polo integrado ao território é invencível.
O que iremos fazer
Aqui reside o ponto decisivo de 2026.
Se cada empresa agir de forma isolada, olhando apenas para seus próprios projetos, seus próprios incentivos e seus próprios resultados de curto prazo, 2026 será apenas mais um bom ano. Importante, positivo, mas insuficiente diante dos desafios que se anunciam.
Se, ao contrário, houver coordenação estratégica — entre empresas, entidades representativas, universidades, institutos de pesquisa, comunidades e governos locais — então 2026 pode marcar o início de um segundo ciclo histórico da Zona Franca de Manaus. Um ciclo menos defensivo e mais propositivo. Menos reativo e mais orientado por escolhas conscientes.
Cadeias locais mais densas. Arranjos produtivos regionais com lógica econômica. Parcerias que transformem conhecimento em produção, e produção em desenvolvimento territorial.
A convocação se impõe
Os incentivos continuam sendo importantes. Eles fazem parte da engenharia do modelo e da sua competitividade. Mas, em 2026, o verdadeiro ativo do Polo Industrial de Manaus não será apenas fiscal.
Será sua capacidade de pensar o futuro antes que ele se imponha.
A escolha está posta. E ela não é técnica. É estratégica.