Quando a ciência vira febre e a saúde vira fantasia

“Hoje são as canetas. Amanhã será outra coisa. O nome do ciclo é o mesmo, performance. E performance, quando vira religião, transforma cuidado em cobrança, ciência em atalho, e saúde em vitrine”

As canetas de GLP-1 saíram do consultório e entraram no feed. No caminho, uma terapia legítima para diabetes e obesidade foi capturada pela lógica do desejo rápido, do pertencimento e do consumo ansioso. O resultado não é só moral ou cultural. É sanitário, econômico e político.

O Brasil vive uma contradição que não cabe na piada pronta nem na demonização automática. De um lado, há uma epidemia silenciosa e persistente. Em 2023, nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, 61,4% dos adultos tinham excesso de peso e 24,3% já estavam em obesidade, segundo o Vigitel.  Em Manaus, a obesidade aparece acima da média nacional das capitais, na casa de 27%.  Do outro lado, a cultura do corpo perfeito transforma qualquer avanço em espetáculo. E, quando o espetáculo toma conta, a medicina deixa de ser linguagem de cuidado e passa a ser linguagem de status.

É aqui que a ciência começa a perder o nome e virar apelido. Chama-se “caneta emagrecedora” o que, na origem, é um conjunto de fármacos desenhados para modular glicemia, apetite e metabolismo. A tecnologia existe e é potente. Ensaios clínicos com semaglutida 2,4 mg apontam perdas médias de peso na faixa de 15% a 17% em cerca de 68 semanas em adultos com sobrepeso ou obesidade.  Com tirzepatida, a perda média de peso chegou a 20,9% em 72 semanas na dose de 15 mg no estudo SURMOUNT-1.   É ciência de alto impacto, não truque. Só que a cultura não compra método, compra promessa.

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Quando a promessa entra em cena, a regra do jogo muda. O tratamento deixa de ser decisão clínica com risco e benefício, e vira acessório de identidade. A pessoa não quer apenas reduzir peso. Quer comprar uma sensação de recomeço. Quer uma forma rápida de apagar o “antes”. Quer um atalho para ser aceita, para calar a autocobrança, para vencer uma guerra íntima que a sociedade lucra em manter acesa. O remédio vira ritual de adequação.

A Anvisa enxergou que a febre já tinha passado do ponto. Em abril de 2025, a agência aprovou controle mais rígido na prescrição e dispensação dos agonistas de GLP-1. A receita passou a ser exigida em duas vias, com retenção na farmácia, com validade de até 90 dias.  A justificativa não foi estética. Foi farmacovigilância. A própria Anvisa menciona um número elevado de eventos adversos associados ao uso fora das indicações aprovadas e um sinal comparativo mais alto no Brasil, com base em notificações no VigiMed.  O Conselho Federal de Farmácia informou que as novas regras passaram a valer em 23 de junho de 2025, vinculadas à Instrução Normativa nº 360/2025.  

Essa mudança regulatória é um retrato do nosso tempo. A agência não está combatendo um medicamento. Está tentando conter um comportamento. A compulsão contemporânea por controle do corpo, quando encontra uma tecnologia eficiente, tende a exigir que ela funcione como milagre. E milagre é sempre perigoso, porque dispensa contexto. Dispensa diagnóstico. Dispensa acompanhamento. Dispensa o fato mais básico e mais incômodo, o de que obesidade não é capricho nem fraqueza moral, mas doença crônica, multifatorial, com determinantes sociais, emocionais, ambientais e econômicos. A febre apaga isso tudo e reduz o problema a um enredo simplório de vontade individual.

Há também o efeito colateral social, que raramente vira manchete com a mesma força do antes e depois. Quando um medicamento vira tendência de consumo, ele tende a faltar para quem precisa dele como tratamento de base. Em 2024, redes de farmácias no Brasil relataram escassez de Ozempic, associada ao aumento da procura pelo uso para perda de peso, e pacientes foram empurrados a improvisos e trocas que exigem supervisão médica.  O hype, em vez de democratizar acesso à inovação, pode concentrá-lo ainda mais. A caneta vira símbolo de desigualdade, um objeto que separa quem pode “resolver” o corpo com cartão e quem precisa enfrentar a doença com fila, escassez e frustração.

É por isso que o debate precisa ser duro e, ao mesmo tempo, justo. Demonizar as canetas é infantil, porque desrespeita pacientes com diabetes e pessoas com obesidade que finalmente encontram uma ferramenta eficaz dentro de um plano terapêutico sério. Romantizar as canetas é igualmente infantil, porque transforma farmacologia em fantasia, reduzindo a complexidade do cuidado a uma compra recorrente. Entre um moralismo e outro, a realidade continua, com 24,3% de obesidade nas capitais e 61,4% de excesso de peso, números que não se resolvem com trend.  

O ponto mais provocativo talvez seja este. A sociedade que exige corpos impecáveis sempre tentará capturar a medicina para servir ao mercado da insegurança. Hoje são as canetas. Amanhã será outra coisa. O nome do ciclo é o mesmo, performance. E performance, quando vira religião, transforma cuidado em cobrança, ciência em atalho, e saúde em vitrine. A resposta não está em proibir o avanço. Está em devolver o avanço ao seu lugar correto, o lugar da clínica, do acompanhamento, da ética e do tempo.

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