A seca começou

“Será que a estratégia diplomática é mostrar o quanto é difícil morar na Amazônia? A cada vez que a seca começou a castigar a região, sentimos o peso dessa verdade. Somos ótimos em recepção de estrangeiros e apreciamos a globalização. Uma parte do mundo está focada em dominação. A governança da Amazônia precisa evoluir para nós acreditarmos que há uma perspectiva de progresso. Hoje o que temos é uma armadilha do tempo, onde tudo se repete”

Quem mora em Manaus e trabalha em alguma atividade que tenha ligação com a logística já percebe que o ciclo da seca começou. As chuvas reduziram, sentimos algum cheiro de fumaça e já há notificação de “taxa da seca”. Estes três fatos entrarão na agenda de todos nas próximas semanas e meses. Poderia ser diferente, mas não é. A história se repete, não como uma farsa, mas como uma realidade terrível, cara e assustadora.

O que deixou de ser feito? Até onde posso constatar, não foi feito o estudo sobre como uma obra poderia garantir uma profundidade apropriada ao canal de navegação que permite navios de grande porte chegarem a Manaus, mesmo em caso de seca extrema. Mais um ano se passou e seguimos reativos aos eventos. A expectativa da repetição da dragagem inútil dos dois últimos anos é a única perspectiva, o que é lamentável, mesmo com o alarmante sobrecusto das empresas, que chegou a quase R$ 3 bilhões.

A importação preparatória deste ano apresenta um ligeiro aumento de 1,3% em dólar de janeiro a julho de 2025 frente ao mesmo período de 2024, segundo dados do ComexStat, excluindo commodities. A seca é esperada, os estoques estão sendo carregados e o custo aumenta novamente. A taxa da seca é cobrada, terminais portuários fazem seus planos e há possibilidade de nova interrupção da hidrovia, apesar de um cenário menos pessimista sobre a seca.

SECA começou
Casas flutuantes e barcos encalhados na Marina do Davi, ancoradouro do Rio Negro, no Amazonas. (Foto: Michael Dantas/Reprodução)

É quase inacreditável que não tenhamos tido a capacidade de agir depois de duas secas históricas. A sociedade brasileira parece conhecer muito mais do que se passa em outros países do que o que acontece na Amazônia. Estamos em uma crise permanente de falta de infraestrutura. Não há planos para sanar o problema, não há discussão pública sobre como enfrentar o assunto. Seguimos a deliberar exaustivamente sobre o que não nos interessa. As pautas, pesquisas e assuntos estão centrados em opiniões e pesquisas que não nos levam ao progresso.

Estamos às portas da Cop30 no Pará e será um momento interessante, pois os custos Amazônicos serão percebidos pelo mundo inteiro. As pessoas falam da Amazônia sem vir até aqui, mas quando aqui estiverem terão um pouco da percepção do que é morar na região, mesmo que seja num evento montado numa das capitais mais importantes e com todo um preparo para receber as milhares de pessoas envolvidas com o evento.

Ainda vale insistir para que o DNIT faça os estudos na região. Ainda vale insistir para que a BR-319 seja asfaltada e suas pontes reconstruídas. Ainda compensa insistir que precisamos de proteção do entorno da rodovia, quando ela for recuperada. Estamos presos numa armadilha do tempo. Somos ignorados pela gestão pública, ao mesmo tempo que o assunto não entra na pauta pública. Discute-se apenas caminhos para não fazermos nada. Apontam-se distrações, discutem-se distrações, discutem-se problemas particulares, mas não discutimos os problemas das sociedades periféricas do Brasil.

Será que a estratégia diplomática é mostrar o quanto é difícil morar na Amazônia? Somos ótimos em recepção de estrangeiros e apreciamos a globalização. Uma parte do mundo está focada em dominação. A governança da Amazônia precisa evoluir para nós acreditarmos que há uma perspectiva de progresso. Hoje o que temos, é uma armadilha do tempo, onde tudo se repete.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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